![]() ![]() O Rio Negro apresenta água de cor escura e translúcida. É um dos três maiores rios do mundo; o fluxo de água que passa por seu leito é maior do que o de todos os rios europeus reunidos e, no Brasil, perde apenas para o Amazonas. Tem quilômetros de largura e mais de mil ilhas que se agrupam em dois arquipélagos: Anavilhanas, próximo de Manaus, e Mariuá, no médio rio Negro, na região de Barcelos. São os maiores arquipélagos fluviais do mundo. O nível das águas depende da estação do ano. Entre o ponto mais baixo da seca e o mais alto da cheia, a variação é de 9 a 12 metros. Como o nível máximo deixa marca de umidade nas árvores das margens antes inundadas, no auge da seca é possível fazer idéia do volume absurdo de água escoada entre uma estação e outra. Dessa diferença resultam paisagens incrivelmente diversas. Na cheia, o rio invade a floresta por muitos quilômetros. Com uma canoa pode-se remar no meio das árvores e penetrar a floresta submersa, entre os raios de sol que escapam do filtro das copas e incidem sobre a água escura. O canto dos pássaros impõe a paz no espírito do visitante. Na seca, surgem as praias e emergem ilhas de areia branca, às vezes tão fina que parece talco. Não fosse a marca da água no tronco das árvores, impossível lembrar que tanta beleza estivesse anteriormente submersa. Nessa época, os barrancos da margem expõem as camadas do solo, troncos e raízes retorcidas que assumem formas esculturais de rara criatividade. ![]() Vista de São Gabriel da Cachoeira em julho (cheia, à esq) e dezembro (seca, à dir) As florestas da bacia do rio Negro são as mais preservadas e despovoadas da Amazônia. Na região, estão localizadas as maiores Unidades de Conservação do país: Parque Nacional do Pico da Neblina, Parque Nacional do Jaú e Reserva Sustentável de Amnã. No que tange à conservação, porém, muitas áreas só existem nos decretos que as criaram, não havendo ações concretas ou planejamento para sua preservação, de fato. ![]() Dossel da floresta de terra firme na região de Manaus. A diversidade de árvores que compõem o dossel pode chegar a cerca de 300 espécies por hectare de floresta. A pobreza de nutrientes de suas águas escuras não oferece condições favoráveis à agricultura. A acidez, que dificulta o aparecimento de insetos, como os mosquitos que infernizam a vida dos visitantes nos rios de águas barrentas da Amazônia, afeta toda a cadeia de vida animal na região. As matas da bacia do rio Negro são comparativamente pobres em animais terrestres e aquáticos. Condições desfavoráveis para caça e cultivo da terra explicam a baixa densidade populacional e o pequeno impacto da interferência humana até hoje sofrido pelas florestas locais. A enorme região da bacia do rio Negro é ocupada por dois grupos étnicos principais: índios e caboclos. Apesar de viverem apenas cerca de 20 mil índios nas terras indígenas oficializadas da parte brasileira da bacia, o número de índios destribalizados que migraram para as cidades é grande. Em São Gabriel, por exemplo, constituem a imensa maioria da população que não pára de crescer do centro para os bairros periféricos, onde se instalam os que acabaram de chegar. ![]() Estrada única a ligar todas as cidades e comunidades que vivem às suas margens, o rio é um vai-e-vem incessante de pessoas e mercadorias. Por suas águas, os barcos-recreio, coloridos pelas redes esticadas para acomodar os viajantes, transportam alimentos, máquinas, material de construção, a produção de farinha de mandioca e de piaçaba e o incipiente artesanato local. Quem viaja de barco pelo rio Negro dá-se conta das enormes distâncias a percorrer. De Manaus a São Gabriel da Cachoeira, a viagem pode durar uma semana ou mais dependendo da potência do motor e da altura das águas. Rio acima, na direção da Colômbia, o movimento de barcos diminui muito e as dificuldades aumentam. Nesta seção do site, contaremos as experiências vividas nas viagens a bordo do "Escola da Natureza", o barco que a UNIP utiliza em uma pesquisa que busca conhecer melhor a diversidade da flora da região do negro. ![]() Drauzio Varella
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