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Cuidados com a pressão arterial

Quarenta e cinco milhões de brasileiros são hipertensos, isto é, têm pressão arterial acima de 14/9. Desses, apenas sete milhões estão sendo tratados. Infelizmente, um ano depois do diagnóstico, mais da metade deles já abandonou o tratamento.

- Dificilmente eu vou ao médico por causa do desgaste da saúde que tenho hoje. A gente vai ao médico, ele manda tomar um remedinho e voltar pra casa. Nós já tivemos muito e, de repente, perdemos tudo. A gente passou a ser uma família vivendo numa panela de pressão. Aqui, todo mundo levantava nervoso, trocava ofensas. Eram problemas e problemas e problemas... lembra Aílton.

Nessa época, Ailton era uma pessoa muito ansiosa. Ele trabalha como vendedor e a instabilidade da profissão fazia com que ficasse cada vez mais tenso.

Ailton - Eu entrava nos meus clientes saindo fumaça pra todo lado.

E, como muita gente faz para se sentir melhor, ele comia.

Ailton - Justamente. Eu era muito, muito, muito nervoso, ansioso demais da conta. Eu podia comer dez coxinhas de uma vez. Eu precisava, porque compensava a ansiedade na comida. E sentia um sono terrível! Não podia vir pra casa na hora do almoço, porque eu queria dormir e não trabalhava mais.

Mas, um dia, Aílton se sentiu muito mal.

- Eu fui internado com pressão altíssima. A minha pressão chegou a 22 por 12, mais ou menos. Ficou altíssima. Tive também diverticulose, um sangramento no intestino muito violento, e quase fui parar na mesa de cirurgia. Foi, então, que eu vi o problema que estava tendo, que eu ia ter que enfrentar e veio um pouco de receio, medo. Então a gente começou a mudar.

Aílton começou a tomar remédio e a pressão baixou. Mas, quem é hipertenso tem de ficar atento: precisa medir a pressão com freqüência.

Dr. Décio Mion - Pessoas que têm hipertensão e estão com a medicação controlada, a gente sempre recomenda que meçam a pressão a cada mês, a cada dois meses, no máximo a cada três meses. Porque, muitas vezes, a pressão muda de nível, e como a pessoa não sente nada, porque a hipertensão é uma doença assintomática, é preciso medir pra saber se ela mudou de nível.

O aumento da pressão do sangue no interior das artérias causa problemas em todos os órgãos. As principais complicações surgem silenciosamente no cérebro, no coração e nos rins.

No cérebro, podem acontecer dois tipos de acidentes vasculares, conhecidos como derrames cerebrais. O isquêmico ocorre quando a artéria é obstruída, e o hemorrágico, quando a artéria rompe, provocando sangramento.

No coração, a hipertensão pode contribuir para a obstrução das coronárias, artérias que nutrem o músculo cardíaco, levando ao infarto do miocárdio.

Hipertensão é a causa de 60% dos ataques cardíacos e 80% dos derrames cerebrais. Mas o que pouca gente sabe é que a pressão alta também provoca sofrimento dos rins, levando à insuficiência renal. Grande parte dos doentes que precisam ser submetidos à diálise enquanto aguardam o transplante de rim chegaram a esse estágio por causa da pressão alta.

Nos rins, o aumento da pressão conduz à dificuldade de filtrar o sangue, à retenção de líquido e à insuficiência renal, que pode exigir diálise e transplante de rim.

- Hoje, infelizmente, tenho um problema crônico renal e faço hemodiálise até chegar um transplante , diz Renato Itiuba. Depois dos 25 anos, eu perdi o controle da obesidade. Já cheguei a pesar 156 quilos.

Renato tem 38 anos. Sempre foi gordo. A primeira vez que procurou um médico para medir a pressão, ela já estava muito alta.

Ailton - Estava 22 por 19. Aí, ele me passou um remédio para tomar uma vez por dia para controlar a pressão.

Dr. Drauzio - Você tomou esse remédio diariamente, sentiu-se bem, não sentia nada?

Ailton - Me senti bem, não sentia nada.

Dr. Drauzio - E quando é que você teve problema outra vez?

Ailton - Eu tinha soluço e perdia o fôlego. A mulher tinha que bater nas minhas costas para a respiração voltar. Aí, quando eu vi, a médica mediu minha pressão, falou que estava 24 por 12, que a minha uréia tinha estourado, meu pulmão já estava cheio de líquido, meu coração também estava cheio de líquido e meus rins tinham parado.

A função dos rins é filtrar o sangue e eliminar através da urina resíduos tóxicos como a uréia e o ácido úrico. Foi o acúmulo dessas substâncias que provocou soluços no Renato. Hoje, ele leva uma vida cheia de restrições. Como os rins não funcionam, a quantidade de água que ingere precisa ser limitada.

Renato -Tomo 800 ml de água ou menos até. Sinto sede e não posso tomar água.

O sal ajuda a reter no organismo os líquidos que ingerimos. No caso do Renato, é muito perigoso: ele só pode comer dois gramas por dia.

Para cada nove gramas de sal que a pessoa ingere, o organismo retém um litro de água. Um litro de água a mais no volume circulante obriga o coração a fazer mais força para trabalhar.

Quem come alimentos muito salgados - pipoca cheia de sal, picles, azeitona - come fácil 20 gramas de sal e retém mais de dois litros de água!

Dr.Décio Mion - Hoje, não se justifica mais tirar o sal de quem tem pressão alta. A gente só deve evitar o excesso de sal. E o que é o excesso de sal? Aquela pessoa que nem experimenta a comida, pega o saleiro e enche a comida de sal.

Sônia Santos - Eu adorava sal. Às vezes, a comida estava até boa e eu ia lá e punha mais sal. Agora não, a gente diminuiu o sal, então acho que estou até melhor agora.

Diminuir o sal foi só uma das coisas que Sonia aprendeu a fazer quando começou a tratar da hipertensão. Além da dieta, Sonia e o marido adotaram um programa de exercícios que podem praticar em conjunto: a dança de salão.

Sônia Santos - A dança é o pedaço que eu mais gosto. Eu me acabo, eu queimo caloria pra caramba!.

Aílton, o vendedor que era estressado, gordo e hipertenso, em dois anos, emagreceu 25 quilos.

Ailton - A diferença foi muito grande. Caiu o peso e tudo na vida melhorou, pressão e até o diabetes hoje é normal. Minha glicemia chegou a 250. Hoje, está em 115.

Dr. Drauzio - Você toma remédio para diabetes?

Ailton - Tomo remédio. Comprimido, todo dia. Mas não alterou mais...

Aílton desenvolveu diabetes do tipo 2, distúrbio freqüente em quem está acima do peso e que se manifesta, na maioria das vezes, depois dos 40 anos.