|
|
|
|
||||||||
|
|
|
![]() Obesidade na adolescência “Sou muito romântica, ainda te amo, preciso de você. Preciso de alguém especial que goste de mim assim do jeito que eu sou.” Essa poesia Fernanda escreveu num dia em que estava muito triste. Foi o jeito que encontrou para desabafar. Fernanda - Eu comecei a gostar de um menino e um amigo dele, que sabia de tudo, falou – “Ela gosta tanto de você, dá uma chance pra essa menina” – mas o menino virou para mim e disse – “Não estou nem aí. Uma garota gorda? Eu prefiro gente magra. Eu posso até conversar com ela, mas agora, em termos de relação amorosa, não dá para encarar, não. E Fernanda continuou: - Estou super mal, estou com vontade de chorar. Parece que estão fazendo um complô contra mim. Eu não mereço tudo isso. Sabe, me chamam de gorda, de baleia... Por favor, parem, parem, me esqueçam. Eu sou gorda, mas estou tentando emagrecer... Fernanda tem 15 anos, mora com a mãe num bairro de classe média em São Paulo. Estuda numa escola particular e há muito tempo enfrenta discriminação por parte dos colegas e, infelizmente, não está sozinha. Muitos adolescentes estão na mesma situação. No Brasil, cerca de 11% das meninas de 15 anos sofrem com excesso de peso. Nos meninos da mesma idade, o índice é mais baixo, 5%. Dr. Drauzio - Com que idade você percebeu que isso te machucava? Fernanda - A partir dos 10 anos. O pessoal fazia uma brincadeira. Quando eu sentava, um grupinho levantava como uma onda, entendeu? Teve dia que eu sentei e a sala toda levantou. Esse, sim, foi o pior dia da minha vida. Luís - Pelo fato de ela ser gordinha, eles fazem uma rodinha e dão um abraço coletivo, falando que um só não consegue abraçá-la. Fernanda – Aí, você se sente a menor pessoa do mundo. É como se você fosse um bichinho, uma formiga. De tão rejeitada, Fernanda começou a se isolar. - Quando fico muito triste, muito isolada, começo a escrever. Às vezes, também desabafo no palco. Eu sei que, se eu estou com raiva ou triste e descontar no palco, ele nunca me devolver. O papel e a caneta são meus amigos e o palco também. Os amigos são muito poucos: papel, a caneta, o palco. E Luís, um dos únicos em que Fernanda confia. Fernanda - Ele não se importou se eu era gorda, se eu era magra. Se eu era feia, se eu era bonita. Ele foi meu amigo, porque gostou de mim do jeito que eu sou. Luís - Eu falo para ela: você não deve ligar para eles, não deve se importar com o que eles falam. Mas é difícil! Aos 15 anos, todo adolescente procura aprovação da turma, dos amigos. E Fernanda confessa: - Eu queria ser simplesmente uma menina que não sofresse preconceito. Ela percebeu o preconceito depois dos 10 anos de idade e essa descoberta coincidiu com a puberdade, com o começo da adolescência. Em geral, os hormônios sexuais interferem muito no desejo de os jovens serem aceitos nessa fase. Mas, para Fernanda o preconceito foi sentido com intensidade. Fernanda - Foi um baque. Eu estou até me conformando por ser gorda. Mas eu não quero me conformar, quero mudar. Tá certo que não vou ser como aquelas meninas que são gordas e põem piercing no umbigo e usam roupa de magra. Dr. Drauzio - Você não consegue andar na moda, não é? Fernanda - Não, não consigo. Geralmente, nas lojas que têm roupa do meu tamanho, tem muita roupa de senhoras, não tem roupa para jovens. Eu uso muito moleton para poder esconder meus braços. Fernanda quer as mesmas coisas que qualquer menina de 15 anos, mas para os obesos, coisas simples como comprar roupa e sentar numa cadeira acabam virando um grande problema. Mãe – Já aconteceu casos de as pessoas não quererem que ela sente numa cadeira. Isso é muito desagradável. Fernanda – Para ir a uma festa é muito complicado, porque eu acabo ficando isolada e as pessoas geralmente não me chamam para sair. Luís – Eu acho que ela não se sente bem, porque está todo mundo dançando e ela fica sentada. Fernanda – Às vezes, as minhas amigas voltam e falam que ficaram com um menino assim, assim e assim, e você Fernanda? Ah, eu não fiquei com ninguém. Dr. Drauzio – Acontece de você gostar de alguém que acaba sendo agressivo com você? Fernanda – Acontece, acontece muito. É muito ruim amar alguém e não ser amada. Eu não sei o que dizer pra mim mesma. Sou uma pessoa normal, sou como qualquer um, tenho sentimentos. Eu fico pensando, será que tem alguém no mundo, um menino que goste de mim? Acho que não, acho que não existe. O caso de Fernanda não é o único, pois 80% dos adolescentes obesos apresentam sintomas de depressão. Nos mais magros, esse número cai para 27%. Numa população de adolescentes, meninas gordinhas submetidas a esse estresse muito grande provocado pela rejeição, certamente são de maior risco para o desenvolvimento de doença depressiva. Obesidade e mais ainda, obesidade na adolescência, nunca é uma doença isolada. Por isso, toda a família - pai, mãe, irmão - deve engajar-se no tratamento e precisa ser orientada para dar atenção ao obeso e estimular, da melhor maneira possível, a prática de atividade física e o engajamento à dieta. E mais: crianças e adolescentes obesos devem ser acompanhados por equipe multiprofissional, inclusive por um psiquiatra, para verificar a ocorrência de sintomas depressivos que exigem orientação psicológica ou, às vezes, medicação antidepressiva. Em abril de 2003, Fernanda foi com a mãe ao Ambulatório de Obesidade do HC de São Paulo. Como parte do programa, foi atendida por um psiquiatra que receitou um medicamento para depressão. Fernanda - Eu espero que o remédio dê certo, que aumente minha auto-estima, um pouquinho. Dr. Drauzio - O remédio deu algum efeito colateral? Fernanda - Ah, eu fico enjoada facilmente. Na depressão, surgem sintomas como desânimo, dificuldade de concentração, alteração do sono, falta de vontade e perda de prazer por causa da produção inadequada de mediadores químicos que são importantes para o funcionamento harmonioso do cérebro. Os antidepressivos agem normalizando a ação desses mediadores. No momento que Fernanda atravessa, não basta tomar antidepressivos. É importante fazer atividade física pra valer. No HC, além do acompanhamento psiquiátrico, Fernanda recebeu um programa de exercícios físicos e, sob a orientação de uma nutricionista, começou a fazer dieta. Fernanda - Eu emagreci um pouco, não dá para notar ainda, mas eu já me sinto um pouco melhor. Dr. Drauzio - Quando você faz regime, qual a maior dificuldade que você tem? Fernanda - Eu não como muito o que devo comer. Como muita besteira, então é muito complicado. Dr. Drauzio - O que você deveria comer e não come? Fernanda - Eu não como nenhum tipo de legume, nenhum tipo de verdura, coisas saudáveis. Mãe – Eu nunca me importei muito com o que ela devia comer. Sempre deixei que comesse o que quisesse. Ela comia hambúrguer, nuggets. Não queria comer salada, não queria comer legumes, e eu deixava. Fernanda - Quando eu fico muito triste, preciso comer alguma coisa, qualquer tipo de coisa, doce, salgado... Aos 15 anos, Fernanda ainda tem o paladar de uma criança. Prefere comidas gordurosas e doces. Não aprendeu, quando pequena, a comer alimentos saudáveis e, agora, trocar o paladar infantil pelo de um adulto é muito mais difícil, mas não é impossível. Dr. Drauzio - É questão de você começar devagarinho. Pegue alface, tempere bem e coma um pouquinho. Você tem que se acostumar com o gosto, porque a gente não nasce com o paladar pronto. Fernanda - Em relação à comida, eu estou melhorando, estou comendo bem, Deus sabe o quanto. Luís – Ela está super animada na academia fazendo exercício. Fernanda – Quando me olho no espelho, já me acho um pouco melhor. Ainda não está aquilo, ainda fico um pouco insatisfeita, mas acho que, com o decorrer do tempo, posso melhorar, eu quero que melhorar, eu preciso melhorar. Eu acho que estou no caminho. Luís – Ela já emagreceu e, depois das férias, eu fui o único que reparou nisso. Nossa Fernanda, como você está magra, falei. Fernanda – Do começo do tratamento até hoje foram 22kg. O sofrimento da Fernanda está longe de terminar. O preconceito existe, a rejeição ao corpo é real e cotidiana, mas ela conseguiu perder 22kg em menos de um ano e ganhou esperança, coragem e mais saúde. - O importante é que não me vejo sozinha, como se eu fosse a única gordinha do mundo. A obesidade faz parte do cotidiano das pessoas. A obesidade é um inimigo persistente. É preciso lutar contra ela pela vida toda. O descaso com o corpo pode trazer conseqüências graves para o organismo. |
||||||||