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![]() Como tratar a obesidade infantil Quando crianças, os adultos de hoje jogavam bola, soltavam pipa e brincavam fora de casa. Hoje, as ruas das grandes cidades são dominadas pelo trânsito intenso e não existe mais espaço para as brincadeiras infantis. Por isso, crianças e adolescentes passam horas, todos os dias, diante das telas do computador, da TV ou do videogame. Na hora da comida, os hábitos também não são nem um pouco saudáveis – cheesburguer e outras comidas gordurosas fazem muito mais sucesso que alimentos leves e saudáveis, como as saladas. - É muito difícil convencer as crianças a comerem verduras.“Verdura não tem a palatabilidade - o mesmo gosto e sabor - de um hambúrguer, o que justifica a preferência da criança por esse tipo de alimento. Nesse caso, a mãe deve pedir que, pelo menos, experimente os pratos que levam verdura como ingrediente. Em alguns casos, a criança prova e vê que o alimento também é gostoso. Não é ruim como ela imaginava ” , ensina Sandra Villares, coordenadora do Ambulatório de Obesidade Infantil da Faculdade de Medicina da USP. Crianças têm preferência por sabores doces e salgados e rejeitam os amargos e azedos. Sabe-se que o sabor dos alimentos é identificado por células especializadas, muito sensíveis, distribuídas pela superfície da língua. Já as células responsáveis pela identificação do gosto amargo estão localizadas na parte de trás, bem no fundo da língua, assim como as responsáveis pelo azedo, que ficam um pouco mais no meio da língua. Os gostos salgado e doce são sentidos na região que vai do meio para a frente da língua, sendo que os sabores adocicados predominam na ponta. Por isso, as crianças adoram lamber doces. Essas áreas gustativas, no entanto, não estão completamente separadas e se misturam em certas áreas da língua. Já o sabor de gordura não é detectado por células especializadas. Além disso, a gordura age em todas as células gustativas, ressaltando o sabor dos outros alimentos. É esse o motivo por que passamos manteiga no pão, colocamos óleo na salada, fritamos o pastel e salivamos só de pensar em churrasco. - Outro dia, sonhei que estava comendo um pernil assado inteiro. Que beleza! Aí, catava aquele molhinho e jogava em cima... Que bom! , lembra Kaíque, de 11 anos. Sandra Villares -Um grama da proteína do bife libera quatro calorias. O açúcar é como a proteína: cada grama libera quatro calorias. Já a gordura libera bem mais. Na verdade, tem o dobro de valor calórico da proteína. Um grama equivale a nove calorias. Quando a gente come carboidratos, como aqueles contidos em doces, pães, farinha, arroz branco e batata, o pâncreas é obrigado a produzir mais insulina, para o organismo conseguir absorver as calorias que as moléculas de carboidrato carregam. Mas, nem todos os carboidratos fornecem o mesmo número de calorias. Há os carboidratos simples, como os do pão, doces e batatas, que caem na circulação rapidamente e forçam o pâncreas a produzir muita insulina e, por isso, dizemos que têm índice glicêmico alto, isto é, absorção rápida que demanda mais insulina. Há também os carboidratos complexos, como os existentes nas frutas e cereais integrais, que são absorvidos mais devagar e exigem menos insulina. Esses têm índice glicêmico baixo. Por exemplo: o índice glicêmico do pão é 100 e o da maçã, 40. Por isso, comer pão engorda mais do que comer maçã. Uma experiência clássica mostra dois grupos de camundongos alimentados durante 17 semanas com dietas diferentes, mas contendo o mesmo número de calorias. O primeiro grupo comeu apenas carboidratos simples, com índice glicêmico mais alto. O outro comeu carboidratos complexos, de índice glicêmico baixo. Ao fim da experiência, os cientistas observaram que os camundongos que comeram carboidratos com alto índice glicêmico tinham muito mais gordura no corpo do que os ratinhos alimentados com carboidratos de baixo índice glicêmico. As fibras contidas nos vegetais, nas saladas, nas frutas, de modo geral, quando ingeridas junto com os carboidratos, dão mais trabalho para o aparelho digestivo e por isso reduzem o índice glicêmico dos outros alimentos. Toda vez que ingerimos mais fibras de legumes, verduras e frutas, dificultamos a absorção do carboidrato que vem junto, esclarece Sandra Villares. Kaíque - Eu estou comendo bastante salada. Tenho comido pouco arroz, pouco feijão, pouca carne vermelha, pouco pão. Agora, como muito menos do que comia antes. No primeiro mês, eu perdi quatro quilos. Logo que começou a freqüentar o Ambulatório de Obesidade Infantil, fazendo dieta e exercícios físicos, Kaíque emagreceu bastante. É que, no início do programa, sua mãe estava desempregada e tinha mais tempo para dar atenção ao que o filho comia. Quando ela voltou a trabalhar, Kaíque passou a ficar muito tempo sozinho, voltou a comer bobagens e parou com os exercícios. Kaíque -Tem um exercício que eu até gosto, porque você fica sentado, é só mexer a perna. Mas, na esteira, se você não acompanhar o ritmo, ela te joga para trás. - Ele tinha que ter vontade de fazer exercício, mas não tem. Não adianta. Quem é gordo, vai brigar a vida inteira pra emagrecer , lamenta a mãe do menino. Poucas escolas oferecem alimentos saudáveis na hora do recreio para os alunos. Geralmente, os lanches servidos nas cantinas são hambúrgueres, pizzas, salgadinhos, doces e refrigerantes. Fica difícil para a criança resistir a tanta tentação. Como os amigos e as outras crianças se comportam com um menino que é gordinho, que está acima do peso? Kaíque responde: - Eu já tive problemas com meus amigos. Acho que as outras crianças esnobam bastante quem é gordo. Repetimos com alunos da pré-escola, em São Paulo, uma experiência realizada na Inglaterra, que demonstrou o grau de rejeição sofrido por meninos e meninas obesos. Exibimos fotografias de uma criança que perdeu os cabelos por causa de quimioterapia e de uma criança em cadeira de rodas, e as fotografias de um indiozinho e de um menino gordinho. A resposta foi que o menino gordinho seria a última pessoa que a garotada escolheria para amigo. Não é fácil para a criança lidar com o excesso de peso. Quase sempre ela sofre na escola, é deixada de lado nas brincadeiras, recebe apelidos e acaba ficando muito sozinha. Quando chega a adolescência, então, o problema se agrava. |
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