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![]() Obsidade infantil As mães sempre ficam ansiosas, quando os filhos não comem. Os pais também, mas as mães ficam mais ansiosas. Ver os netos gordinhos sempre foi a alegria das avós. Antigamente, uma criança rechonchuda era admirada como saudável. E com razão: num mundo sem antibióticos, sem saneamento básico, assolado por epidemias de fome, a criança mais gordinha tinha muito mais chance de resistir. A necessidade de manter os filhos superalimentados nos períodos de fartura foi tão essencial à sobrevivência da espécie humana que ainda hoje as mães enlouquecem quando os filhos não querem comer. Mas esse padrão está mudando. - Às vezes os pais observam a criança e forçam a alimentação. Isso não é correto, porque a criança conhece seu grau de saciedade. Ela sabe o quanto precisa comer , explica Sandra Villares, coordenadora do Ambulatório de Obesidade Infantil da Faculdade de Medicina da USP. E, se a mãe, o pai, a avó começam a forçar, a insistir para que coma sem vontade, a criança começa a desconhecer a sensação de saciedade, de saber que já está satisfeita. E, mais tarde, descobre que não consegue parar de comer. A obesidade transformou-se numa epidemia que afeta 10% da população infantil. Uma em cada três crianças brasileiras, entre sete e 12 anos, está acima do peso e um número cada vez maior de mães se desespera com a situação inversa: a do filho que come demais. A secretária Sandra Regina Moraes está frustrada e nervosa. Ela freqüenta com o filho Kaíque o Ambulatório de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas em São Paulo. A primeira consulta foi dia 20 de maio de 2003. Kaíque tem 11 anos, está muito acima do peso e não consegue emagrecer. Quando começou o tratamento pesava quase 76 quilos, chegou aos 72 quilos e agora, sete meses depois, está de novo com quase 76 quilos. Kaíque - Mas aí é o seguinte: vai ter festa. Lá na festa, eles cortam o pedaço de bolo, aquele pedaço de bolo grosso. Eu como metade e guardo a outra para comer em casa, depois de um tempo. Mãe de Kaíque - Se ele não tivesse aprendido... Mas ele aprendeu. Aprendeu o que tem que comer, como comer, em que horário, o que faz bem e o que não faz. Ele aprendeu tudo isso no tratamento e acompanhamento. É só fazer. Kaíque - Durante o dia inteiro, parece que já passou o efeito de tudo aquilo que eu comi. Aí eu tenho que comer de novo. Parece que o estômago pede mais comida. Kaíque não sabe, mas esse é um problema que começou antes de ele nascer. As células que armazenam gordura surgem no feto ao redor da 15ª semana de gestação. O peso da mãe durante a gravidez vai afetar o do filho. A má nutrição da gestante pode levar à obesidade da criança, como forma de compensação. Já, se a mãe engorda muito, a probabilidade de ter um filho obeso é maior. A mãe do Kaíque não é magra e engordou bastante durante a gravidez. Sandra Villares - A gente sabe que a criança faz célula adiposa, o tecido adiposo, a gordura, no primeiro ano de vida. Em grande quantidade. Mais ou menos 40% de seu peso no fim do primeiro ano de vida correspondem à gordura. Na criança até um ano de idade, as células adiposas não se multiplicam. Apenas acumulam gordura em seu interior. A quantidade máxima de gordura que cada célula consegue armazenar, na criança ou no adulto, é um grama. Os bebês são gordinhos e cheios de dobrinhas porque vão precisar dessa reserva de gordura quando começarem a andar. À medida que crescem em altura, essas reservas vão sendo consumidas. Quando a criança chega aos cinco ou seis anos, as reservas de gordura estão, geralmente, em nível mais baixo e devem permanecer baixas até os sete anos, quando voltam a crescer. Hoje, porém, as crianças comem muito mais alimentos doces e gordurosos e isso faz com que as células de gordura se desenvolvam mais cedo. Com quatro ou cinco anos, elas já produzem um tecido gorduroso que só deveria ser formado aos sete anos. Sandra Villares - Sim. Se os pais observarem que o filho está começando a ganhar peso por volta dos quatro, cinco anos, devem procurar o pediatra. Porque não é normal uma criança engordar nesse período, nessa faixa etária. Na criança magra, dos dois aos dez anos, ocorre apenas um pequeno aumento do número de células adiposas. As células existentes incham ou esvaziam seu conteúdo gorduroso de acordo com os gastos de energia do organismo. Kaíque - Eu comecei a comer muito. Minha mãe comprava chocolate. As caixas de chocolate que comprava iam inteiras, num dia só. Num dia só, eu comia uma caixa de bombom com ela e meu irmão. Nas crianças obesas, as células adiposas incham, isto é, acumulam gordura em seu interior, mas também ocorre a formação de novas células que vão armazenar mais gordura. Kaíque - Durante o dia, como bastante bolacha e salgadinho, quando a minha mãe compra. Nem espero ela chegar. Eu como escondido. Crianças adoram salgadinhos, bolachas recheadas e refrigerantes - alimentos altamente calóricos que elas não podem comer à vontade. Os pais devem estar atentos, pois o consumo exagerado desses alimentos é uma das principais causas da obesidade infantil. A predisposição genética para a obesidade é um fenômeno biológico complexo, que envolve a interação de mais de 250 genes diferentes. Mas, a biologia sozinha não consegue explicar a atual epidemia de obesidade: o ambiente exerce papel decisivo. Mãe de Kaíque - O Kaíque é muito preguiçoso pra fazer atividade. Ele nunca ligou para jogar bola, correr, essas coisas. Nunca. O negócio dele é jogar videogame sentado e ainda comendo alguma coisa. Kaíque - Se deixarem, eu passo o dia inteiro lá, comendo e jogando. Hoje, nas grandes cidades, as crianças não têm quase espaço para a prática de atividades físicas e consomem uma dieta monótona, rica em alimentos altamente calóricos. Seguir a dieta direitinho e fazer bastante exercício, se para o adulto já é difícil, imagine para criança. Fica complicado resistir às frituras, aos doces, às bolachas, aos refrigerantes, aos sanduíches gordurosos, se continuam a ser oferecidos. Ajudar uma criança a perder peso é uma tarefa de toda a família. |
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