BUSCA

 


Não existe milagre
Efeito sanfona
Como o organismo controla nossa vontade de comer
Os perigos das fórmulas emagrecedoras
Obesidade infantil
Como tratar a obesidade infantil
Obesidade na adolescência
Obesidade e hipertensão
Cuidados com a pressão arterial
Obesidade e diabetes
Como tratar o diabetes
Anorexia nervosa
O pesadelo da bulimia
Compulsão alimentar
Obesidade grave
Cirurgia bariátrica







Fórmulas perigosas

- Eu sempre procurei milagres para ficar com um corpo perfeito sem ter que fazer exatamente nada. E é tomando remédio que a gente espera esse milagre , conta Sandra.
Já Michele quer comprar um remédio que viu num site da Internet e liga para a empresa.
- Meu nome é Michele. É que uma amiga minha me indicou seu site porque vocês estão oferecendo um remédio e eu quero perder dez quilos, diz ela para o atendente.
- Ah, o melhor jeito pra emagrecer é tomar remédio , comenta Patrícia e marcela comemora: Eu consegui eliminar 20 quilos e foi tomando uma fórmula que eu consegui isso.
Essa história é um conto de fadas ao contrário. Começa com felicidade, mas o final é sempre triste.
- Às vezes, me dá tanto medo que, uma vez, a minha avó me achou dentro da casinha do cachorro , relembra Sandra.
As fórmulas para emagrecer, cada vez mais procuradas, receitadas e consumidas, contêm cinco, dez, às vezes, 15 componentes. Os mais comuns são anorexígenos para controlar o apetite, tranqüilizantes, hormônios da tireóide, diuréticos, laxantes e os antidepressivos.
Michele recebe, pelo correio, uma caixa com os remédios que comprou pela internet. Não vem escrito nada nos remédios, a não ser “Uso interno - Contém sessenta cápsulas – Complexo emagrecedor forte”. Toma sem saber o que é exatamente. Eu estou confiando no site, diz.
Toda fórmula para emagrecer contém uma substância anorexígena. Geralmente dietilpropiona ou femproporex. Os brasileiros consomem 70% de todo o femproporex produzido no mundo. Isso acontece porque é uma droga barata. Mas atenção: é uma droga que pode provocar dependência química, depressão, irritabilidade e transtornos psiquiátricos mais sérios, mesmo em doses baixas.
- Uma vez, saindo da faculdade, cheguei a parar um ônibus na serra, entrando com um revólver de plástico na frente do ônibus. Cheguei até a peitar um homem. Estava extremamente irritada” , conta Sandra.
Não é difícil imaginar por que Sandra agiu assim. Ela tem 30 anos e começou a tomar fórmulas para emagrecer aos 17. Eu não fiquei um ano sem tomar a fórmula, confessa.
- Às 10:00, tomo anfepramona de 700 miligramas. Junto com ele, tomo hamamelis. Aí, às 17:00, tomo femproporex, 20 miligramas. Ele mudou os medicamentos justamente por isso. Para que eu não me sinta tão mal quanto estava me sentindo
, explica Elza.
Para tentar diminuir os efeitos tóxicos desses anorexígenos, as fórmulas também contêm tranqüilizantes e antidepressivos.
- Uma norma do Conselho Federal de Medicina, que vigora desde 1997, proíbe esse tipo de associação. Essa norma não permite associar especificamente moderadores de apetite, calmantes, hormônios de tireóide, laxantes e diuréticos com a finalidade de perder peso, explica
Márcio Mancini, endocrinologista da Associação Brasileira de Estudos da Obesidade.
Receitar tranqüilizantes misturados com anfetaminas não só é proibido por lei como aumenta muito o risco de doenças cardíacas e psiquiátricas. Além disso, como são drogas que causam dependência, o efeito fica cada vez mais fraco e os usuários acabam aumentando a dose por conta própria.
- Você fala assim: Ah, eu não estou mais emagrecendo, então vou aumentar as doses , foi o que disse Michele.
- Cheguei a tomar seis por dia, quando a prescrição eram dois comprimidos , confessa Sandra.
A furosemida é um diurético. Você urina mais, desidrata, sobe na balança e tem a falsa impressão de que emagreceu. Mas, junto com a água, perde sais minerais importantes para o funcionamento do organismo.
- Nesses remédios tinha anfepramona, diazepan, clonazepan, potássio e T3 , conta Michele.
O nome T3, na verdade, é uma abreviação. Um dos maiores perigos dessas fórmulas ditas emagrecedoras é a generosidade com que o hormônio tireoideano é receitado. A desculpa é sempre a mesma: "sua tireóide anda preguiçosa". Esses hormônios, muitas vezes, estão disfarçados com o nome de "queimadores de gordura". Desconfie. Hormônio tireoideano não deve nunca ser usado para emagrecer.
- O médico dizia que era tudo natural. Quando eu tomei a injeção de alcachofra, ele disse que o verão estava chegando, que eu tinha de acelerar o metabolismo e que o medicamento não tinha contra-indicação nenhuma. Era só para ajudar a queimar. Ajudar a queimar. Nem se falava em tireóide , lembra Patrícia.
A fórmula receitada para Patrícia, na verdade, era alcachofra com hormônio da tireóide. Quem comanda a produção de hormônios no organismo é a hipófise, uma glândula situada junto ao cérebro. A hipófise libera um hormônio chamado TSH para ordenar que a tireóide produza hormônio tireoideano. Na verdade, o hormônio tireoideano age sobre diversos tecidos: melhora a eficiência das batidas do coração, favorece os movimentos intestinais, estimula a capacidade de contração dos músculos, ajuda a manter a integridade dos ossos e age no cérebro, aumentando o poder de concentração e a rapidez de raciocínio.
Como as fórmulas contêm altas doses de hormônio tireoideano, provocam hipertireoidismo, uma doença que causa diversos sintomas.
- Boca seca, taquicardia. Uma irritabilidade fora do normal, de bater uma porta e eu já estar explodindo, alerta Patrícia.
Taquicardia é quando o coração bate mais rápido, mas não é o único efeito adverso dessas fórmulas. Aceleração dos movimentos intestinais, enfraquecimento e atrofia dos músculos, enfraquecimento dos ossos são outros. Nas mulheres, os ovários também são afetados e as menstruações podem ser suspensas.
- Eu tive queda de cabelo, fiquei com o cabelo bem ralinho. E também fraqueza muscular tão grande que tinha vontade de me deitar em qualquer lugar , relembra Sandra.
- Quando eu reclamava, o próprio médico me dizia que tudo tem um preço e, quando estivesse magra, esses efeitos iriam passar. Dizia também que o remédio era natural, e só estava ajudando a acelerar meu metabolismo, que é lento. Por isso, eu era gorda , denuncia Patrícia.
O mais terrível é que, na maioria das vezes, essas fórmulas são receitadas por médicos. Só uma minoria compra o remédio sem receita.
- Quantos médicos me receitaram fórmulas? Precisamente quatro , contabiliza Elza.
- Apenas uma médica disse que eu não precisava de remédio, mas mesmo assim me deu uma fórmula , aponta Sandra.
O Conselho Federal de Medicina e o próprio Ministério da Saúde proíbem o uso de fórmulas para emagrecer, mas os médicos ainda as prescrevem. No entanto, existem remédios que podem ser receitados para o emagrecimento.
­ Dr Marcio Mancini - Aqueles que apresentam obesidade e não têm sucesso com o tratamento convencional, com dieta e atividade física, podem tomar remédios, que ajudam a emagrecer e estão disponíveis nas farmácias normais. Eles atuam diminuindo a fome, aumentando a sensação de saciedade, ou seja, fazendo com que a pessoa se sinta mais satisfeita à medida que vai comendo, ou inibindo a absorção de nutrientes no intestino. São cápsulas com um medicamento apenas, as chamadas monodrogas. Cápsulas com um medicamento.
Sandra conta que parou de tomar os remédios de um dia para o outro.
- Joguei tudo na privada, mas senti vontade de tomar depois. Era como se eu estivesse jogando na privada a chance de ser mais magra. Então, me partiu o coração ter que fazer aquilo. Mas eu preciso, por mim mesma, emagrecer , acredita Patrícia.
Emagrecer sem ajuda não é fácil. Se você não consegue, procure um médico, um bom médico. Existem remédios com eficácia comprovada. Desconfie de fórmulas que misturam medicamentos. Emagrecer é um processo lento e você vai ter que tomar cuidado com o que come para sempre.