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Gordura como herança

O número de gordos é bem maior do que o de desnutridos, e não pára de crescer, especialmente entre os mais pobres.

Para contar a história de alguém que passa o dia comendo, contamos o cotidiano da vendedora Cláudia, que trabalha numa ”bonbonniére”, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

Logo de manhã, ela come um X-Tudo com dois ovos.

Cláudia - Às vezes, fico só triste e me pergunto por que estou comendo tudo isso, mas é muito difícil resistir a essas barras de chocolate, bombons, biscoitos, refrigerante.

A obesidade como epidemia é fenômeno característico dos últimos 20 ou 30 anos. Antigamente não era assim. As imagens do centro de São Paulo, nos anos 1920, mostram que havia poucas mulheres no centro da cidade e que, nas ruas daquela época, raramente se via uma pessoa obesa. Quase todos eram magros.

A entrada da mulher no mercado de trabalho provocou uma mudança no comportamento alimentar dos brasileiros. Ela deixou de preparar os alimentos dentro de casa e passou a utilizar alimentos mais processados, fazendo com que houvesse desequilíbrio no peso dos membros da família , explica a doutora Sônia Tucunduva, do Departamento de Nutrição e Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Mas, ninguém engorda simplesmente porque come errado. Ganhamos peso também pela energia que deixamos de gastar. As facilidades do mundo moderno permitem que as pessoas ganhem a vida sentadas. O taxista Rodrigo é um exemplo típico dessa situação. Depois que comprou o táxi, há um ano e meio, Rodrigo engordou 20 quilos.

Antes, eu jogava bola, andava de bicicleta, agora com o táxi, fico preso e trabalho sentado”, diz ele.

O corpo humano, como o automóvel, precisa de combustível: a comida. Se o corpo fica parado, a energia que vem dos alimentos não é usada, embora ele consuma energia mesmo quando repousa, pois o coração continua batendo e o cérebro, os pulmões e o aparelho digestivo continuam funcionando.

Quando fazemos esforço, os músculos se contraem. Para isso, precisam de mais energia, que chega empacotada nas moléculas de ATP. Ao entrar em contato com as fibras musculares, as moléculas de ATP sofrem uma transformação química e liberam energia, que será gasta em atividade.

A única forma que o corpo tem para ganhar calorias é a alimentação. Quando o número de calorias que ingerimos é menor do que a soma de energia gasta em repouso mais a energia gasta em atividade, ficamos mais leves, perdemos peso. Mas, quando a soma das energias gasta em repouso e em atividade é menor do que o número de calorias ingeridas, ficamos mais pesados, ganhamos peso e gordura.

Quanto menor o esforço, maior o peso extra. O táxi do Rodrigo tem direção hidráulica e vidro elétrico. O esforço que ele deixa de fazer quando fecha e abre o vidro representa, em um ano, um quilo e meio a mais de peso. Para almoçar na churrascaria do shopping, Rodrigo usa escada rolante: menos esforço e mais um quilo e meio em um ano.

Por que será que gostamos tanto de doces e alimentos gordurosos? Para entender, é preciso lembrar que a espécie humana tem cinco milhões de anos e que herdamos nosso paladar dos nossos ancestrais.

Há 20 mil anos, eles moravam em cavernas e eram raros os dias de comida farta ao alcance da mão. Para matar a fome, o homem pré-histórico sonhava encontrar frutas doces e carne, alimentos super calóricos, capazes de sustentar uma família por bom tempo.

Depois de comer, todos ficavam sem fazer nada, imóveis, para economizar energia. Ninguém tinha idéia de quando viria a próxima refeição. Quem detestava carne, enjoava com açúcar e passava mal de estomago cheio, enfraquecia e era atacado por predadores. Já os amantes de carnes gordas e doces, dotados de organismos capazes de acumular calorias sob a forma de gordura resistiram melhor e deixaram mais descendentes. Diante da picanha gordurosa e do prato de salada, nossos genes babam pela carne e desprezam o resto.