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![]() Cirurgia bariátrica - Estou ansiosa pra caramba! Estou nervosa! Não é que eu não queira. A coisa que eu mais quero neste mundo é operar, comenta a secretária Érika Cardote Kuhl. Três mil pessoas, a cada ano, encaram o desafio radical de emagrecer reduzindo o tamanho do estômago. A cirurgia bariátrica é um procedimento muito delicado. - Não se pode esquecer que um paciente que pesa 190 quilos, 200 quilos, ele é um paciente de risco cirúrgico , explica Alessandra Rascovski, do Ambulatório Clínico de Obesidade Grave do Hospital das Clínicas de São Paulo. No mundo, as primeiras cirurgias bariátricas foram realizadas em 1954. No Brasil, só a partir da década de 1980. No dia 10 de agosto de 2004, depois de quatro anos na fila, chegou a vez de Érika. Aos 40 anos, com 1,65 m de altura e quase 160 quilos, ela espera na maca a hora de entrar no centro cirúrgico. As principais complicações cirúrgicas bariátricas são as fístulas (feridas operatórias que demoram pra cicatrizar), anemia crônica, deficiência de cálcio que provoca osteoporose e pedras nos rins, engasgamento, perda de cabelo, cálculo na vesícula e um fenômeno conhecido como dumping. Alessandra Rascowski - Essa é uma complicação bastante importante e, de certa maneira, até bem-vinda, já que acontece quando o paciente come alimentos muito doces ou muito gordurosos. - Os médicos falaram que a cirurgia foi um sucesso, que foi muito boa, que não teve problema nenhum, disse Érika após a cirurgia. Existem várias técnicas de cirurgia bariátrica. As mais utilizadas provocam a perda de peso de duas maneiras: diminuem drasticamente o tamanho do estômago e evitam que os alimentos ingeridos sejam totalmente absorvidos pelo organismo. - Hoje, só tomei água e chá. Pus 20 ml da seringa, porque o meu estômago agora é pequeno, e preciso ir tomando devagar, de quinze em quinze minutos, contou Érika quando foi entrevistada. Na cirurgia que Érika fez, o estômago foi cortado bem em cima, de forma que seu volume ficou reduzido a 50 ml. O trânsito dos alimentos foi refeito costurando uma alça do intestino nesse pequeno estômago. O resto do estômago antigo ficou fora de circuito. - No pós-operatório, fiquei morrendo de vontade de comer, mas não fiz isso porque sabia que ia me prejudicar. A partir do quinto dia, eu comecei a tomar água de coco. Parece que eu nasci de novo. Eu não agüentava mais aquele chá na minha frente. Tomava bem pouquinho, 20 ml. Eles deram uma seringa, daí eu enchia e tomava. Érika tem todas essas restrições para se alimentar porque, antes, o estômago dela, que se dilatava à vontade, agora, depois da cirurgia, foi reduzido ao volume de 50 mililitros, um copinho de café. Durante todo o primeiro mês depois da cirurgia, Érika só pode tomar chá, sucos coados e sopas feitas apenas com a água em que foram cozidos os alimentos. Uma dieta bastante restrita, mas necessária: o corpo precisa adaptar-se ao novo tamanho do estômago. Alessandra Rascowski - A gente vai transformando a dieta de líquida para pastosa, pra branda, até a ingestão dos alimentos sólidos. Érika - Hoje eu vou comer sopinha de nenê. Olha que delícia! Na realidade, eu tenho vontade de comer coisa mais forte, mas quando o tempero está muito pesado o estômago dói. Quando o estômago está vazio, libera uma substância chamada grelina, que informa ao cérebro que está na hora de comer. Com a diminuição do estômago, a produção de grelina fica menor e a fome também. Só que esse é um processo demorado. Érika - Há quinze dias, quando me pesei, já tinha perdido 15 quilos. Acredito que agora, já são mais cinco dias, devo ter perdido mais. O resultado é muito rápido. Aquilo que o gordo sonha, num passe de mágica, está acontecendo. Dra. Alessandra Rascowski - Você emagreceu 23 quilos. Está dentro da média. O primeiro mês é realmente avassalador, o que dá até uma certa euforia em vocês. Agora vai começar a desacelerar a perda de peso. Só que você agora é muito mais responsável pelos resultados. - Em termos psicológicos, começa a entrar numa fase muito eufórica, de poder sair, viver tudo o que não viveu. Muitos pacientes, após cinco anos, chegam até a voltar a engordar porque acham que a cirurgia é como mágica, agora posso comer de tudo, vou comer e pronto, declara a psicóloga Marlene Monteiro da Silva. Depois da cirurgia, quando a pessoa começa a ingerir alimentos sólidos, é preciso muito cuidado. Tudo deve ser bem picado e bem mastigado. Qualquer exagero pode provocar vômito, engasgo, mal-estar. Drauzio - O que acontece se você forçar, comer mais do que você deveria comer? Érika - Eu fico entupida e tenho que vomitar. Dra. Alessandra Rascowski - Pessoas que estavam habituadas a comer cinco mil calorias, portanto refeições exageradas, de repente comem um pouquinho, coisa mínima, e já se sentem mal. Elas vão se adaptando aos poucos. É um aprendizado mesmo. Érika - Hoje me deu a maior vontade de comer picanha, então eu vou comer picanha, arroz, feijão e pão. Vou comer com bastante gordura e vamos ver o que vai acontecer. Dra. Alessandra Rascowski -.As complicações mais freqüentes da cirurgia, que aparecem nos primeiros meses, geralmente são cansaço, fraqueza, a síndrome de dumping. O dumping aparece porque a cirurgia remove o estômago e os alimentos caem direto no intestino. Quando são muito doces ou muito gordurosos, provocam irritação intensa. A pessoa se sente muito mal: palpitações, suor frio, palidez, escurecimento da vista, sensação de desmaio e diarréia. Érika - É horrível. Começa a sentir como se o estômago estivesse entupido, começa a te dar um suor frio, uma coisa muito ruim. Agora fui no banheiro, pus tudo pra fora. É o preço que você paga pelo que fez, mas é tão pequeno perto dos benefícios que você tem que vale a pena. Sessenta por cento das pessoas que fazem a redução do estômago desenvolvem intolerância à carne. Dra. Alessandra Rascowski - Você pode usar soja, você pode usar derivados de leite e aí sim repor a quantidade de proteína necessária para formar musculatura, pra manter o cabelo, pra manter as unhas e até a disposição dessa pessoa. Este foi o peso da Érika em março de 2004: 115,3 quilos. Em abril, ela estava ainda mais magra: 109,9. Quando Érika chegou aos cem quilos, estava muito diferente da mulher cheia de problemas que encontramos na primeira gravação. Em dez meses, tinha emagrecido 57 quilos. Dr. Drauzio - Você fez uma cirurgia. Seu estômago, que tinha uma capacidade enorme, fica reduzido a um copinho, desses de plástico, de café. Você só pode comer um pouquinho, tem uma série de desequilíbrios no organismo. Depois tem que fazer cirurgias plásticas. Compensa o sacrifício? Dra. Alessandra Rascowski - Compensa o sacrifício? Compensa sim. E compensa principalmente nesses casos em que o paciente tem risco de vida por causa da obesidade. Erika - Estou realmente aproveitando a vida, os meus filhos, a minha família, os meus amigos. Está muito bom mesmo. E o namorado também, eu estou namorando. Érika trocou a obesidade excessiva, uma doença grave, com risco de morte, por outra com a qual consegue conviver. Mas nesse processo sofreu muito. A cirurgia é uma solução extrema, um último recurso. |
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