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Obesidade Grave - Cirurgia de redução do estômago

Uma mulher bonita, alegre, que sempre gostou de dançar. Hoje, uma entre os dois milhões de obesos graves do país, Érika não acompanha mais o ritmo:

- É o fôlego mesmo. Fico cansada, vermelha, pareço um camarão....

E passa o baile sentada numa cadeira. Aflita, confessa:

- Aqui, no baile, tem essas cadeiras plásticas. Se ela resolver abrir a perna, eu pulo. Tem que ficar em estado de atenção pra a qualquer momento pular. Se não você cai. Eu fico morrendo de medo.

A cada ano, seis mil pessoas engordam tanto que se tornam incapazes de fazer coisas banais, como sentar numa cadeira ou subir num ônibus. Érika concorda:

- Subir no ônibus é complicado. E passar na roleta, então? Faz uns três anos que não consigo passar, tenho que ficar na frente. Eu escutei a minha vida inteira, minha juventude inteira. Tudo é por causa da obesidade. ‘Você é sem vergonha, você não emagrece porque não quer’. E não é isso. É uma doença. Mas nunca ninguém procurou olhar por esse lado.

Érika pesa 159,4 quilos e mede 1,65m. Segundo o IMC - o Índice de Massa Corporal - calculado dividindo-se o peso pela altura ao quadrado, é considerado obeso grave quem tem IMC igual ou maior do que 40.

- IMC 58,8 é indicativo de obesidade grau três, avalia a nutricionista que acompanha o caso.

Obesidade grau três é uma doença grave, muitas vezes fatal. Nos jovens entre 25 e 34 anos, o risco de morrer de complicações causadas por tanto excesso de peso é 36 vezes maior. Gordinha desde criança, Érika engordou para valer depois da primeira gravidez. Tinha 25 anos.

- Antes de engravidar, eu estava com o peso ideal, 65 quilos. Durante a gravidez de minha filha, engordei 30 quilos. Na segunda, a do menino, foram 40, lembra.

Rafael nasceu em 1988. Dessa data em diante, Érika tentou, sem sucesso, perder peso.

- Fazia os regimes e acabava engordando mais, dobrando o peso, conta.

A dificuldade de emagrecer é parte da doença. Quem é obeso come muito porque substâncias liberadas pela gordura atuam no centro da fome e produzem mais fome. Se uma pessoa que precisa de 2,5 mil calorias diárias para viver ingere 3,4 mil, o excesso, 900 calorias, é armazenado sob a forma de gordura.  Em um mês, são 27 mil calorias a mais. Em um ano, 328,5 mil calorias.

- Comprei mais de 1 quilo de carne tipo alcatra, trouxe para casa, tenho uma churrasqueira elétrica. Fiz churrasco à noite e comi, conta Érika à câmera-diário instalada em sua casa.

Um grama de gordura corresponde a nove calorias. Então, essas 900 calorias diárias se transformam em 100 gramas de peso extra por dia, três quilos em um mês e 36 quilos a mais em um ano.

Érika - Fui dormir tarde da noite. Levantei, tomei café, depois, quando chegou a hora do recreio na escola, eu morrendo de fome, comi uma coxinha e um pastel e ainda fiquei com fome.

Ela trabalha na secretaria de uma escola. Passa o dia em frente ao computador. Seu trabalho é extremamente sedentário.

- Quando tem que buscar alguma coisa com o professor, fazer alguma coisa fora da sala, geralmente peço a minha companheira de trabalho para ir.

Como muitos obesos, Érika tem problemas para locomover-se. Anda com ajuda de uma bengala.

- Começou a aparecer tanto problema físico, no organismo, decorrente da obesidade, que veio a depressão. Era aquela coisa: eu só com sono”, diz.

Mas, com tanta gordura, até dormir é difícil. Érika tem apnéia do sono. 

Apnéia do sono é uma doença crônica, progressiva, grave, que causa pausas respiratórias durante a noite e sonolência durante o dia e, conseqüentemente, má qualidade de vida, explica o doutor Flávio Aloe, do Laboratório do Sono.
    
A apnéia do sono afeta mais os obesos porque, quando a gente dorme, a musculatura fica relaxada e o peso da gordura na face e no pescoço comprime a garganta e dificulta a passagem do ar. O sono fica agitado, entremeado por roncos fortes, interrompidos por paradas respiratórias que duram mais de dez segundos. No dia seguinte, a pessoa está imprestável, dormindo em pé.

Dr. Flávio Aloe - Não necessariamente a pessoa que tem apnéia do sono percebe que acorda, porque os despertares são muito curtos e o que chama a atenção são os roncos e as pausas respiratórias, que geralmente são observadas pelos cônjuges.

Para diagnosticar a apnéia do sono, é preciso fazer um exame chamado polissonografia. O paciente dorme no laboratório do sono e é monitorado num aparelho através dos fios que são colocados na cabeça e em outras partes do corpo. O aparelho registra o número de apnéias que ele teve durante a noite.

Flávio Aloe - Existem casos mostrando que, com o emagrecimento, a apnéia melhora em sua gravidade e, às vezes, desaparece por completo.

Érika - Isso começou a influenciar o casamento. Não por ele, mas por mim mesma. Porque quando a gente ia ter alguma coisa e ele me tocava, eu falava: assim não, não pega aqui, não faz assim. Já não era como antes. O relacionamento foi esfriando e ele acabou arrumando outra.

Em 2000, quando estava com 36 anos, Érika decidiu procurar ajuda.

- Só sei que, um dia,eu acordei e falei: chega! Fiz a inscrição pra fazer a operação.

O grupo de obesidade grave do Hospital das Clínicas de São Paulo atende pessoas com indicação para cirurgia de redução do estômago, ou cirurgia bariátrica.

A cirurgia bariátrica é uma operação de alta complexidade, é o último recurso. Na faixa dos 18 aos 65 anos de idade, só pode ser indicada nas seguintes situações:

1) obesidade grave há mais de cinco anos;

2) a pessoa ter sido tratada para emagrecer por mais de dois anos, sem sucesso;

3) ter índice de massa corpórea maior ou igual a 40, ou um índice de massa corpórea igual ou maior que 35, mas ser portador de doenças como hipertensão, diabetes, problemas cardíacos.

Dr. Drauzio - A cirurgia, na verdade, é um recurso extremo indicado para os pacientes que precisam perder muito peso, 50, 60 quilos. Quer dizer, para aqueles em que a obesidade coloca a vida em risco. Não é isso?

Dra Alessandra Rascovski, que trabalha no Ambulatório Clínico de Obesidade Grave do Hospital das Cínicas, responde:

- É exatamente isso. O que temos visto, em alguns casos, é que a aparente facilidade de obter o emagrecimento - aparente porque a pessoa também vai ter que se adequar ao estômago bastante pequeno, a algumas restrições e a um segmento com médicos para o resto da vida - essa aparente facilidade faz com que outras pessoas queiram usar essa técnica para emagrecer.

No grupo de obesidade do Hospital das Clínicas são atendidas 700 pessoas por ano, mas apenas 60 são operadas. Hoje, existem mais de 1,9 mil inscritos, o que faria a fila de espera durar 33 anos. Isso não acontece porque muita gente desiste, faz a operação com médico particular ou morre, infelizmente. O tempo real de espera é de cinco a dez anos. Érika teve sorte: esperou quatro anos e faz planos:

- Depois que eu emagrecer vou usar saia até o joelho. Hoje, é mais difícil pôr saia, porque as pernas são muito juntas e é só andar um pouco que já ficam assadinhas, porque raspa uma na outra..

Uma semana antes da cirurgia, Érika contou que estava meio aflita, não dormia direito e acordava com muita dor no corpo.

- Estou super feliz, com bastante coragem, mas morrendo de medo.

Pessoas que passam pela cirurgia bariátrica podem ter um pouco de queda de cabelo. As unhas enfraquecem e parte da pele pode apresentar ressecamento, por exemplo. Na região de abdômen e embaixo da mama, onde há muita umidade, às vezes, quando a pessoa está emagrecendo a pele cai, e é preciso muito cuidado para não ter micose.

- Algumas coisas aparecem durante o acompanhamento como conseqüência da cirurgia e vão sendo tratadas. Esteja tranqüila. A operação vai ser um sucesso, esclarece a médica que cuida de Érika .

- Hoje foi um dia muito especial. Nós fizemos uma comemoração numa churrascaria para que eu me despedisse da carne, escreveu Érika em seu diário. A carne que eu mais gosto é a picanha, de preferência com a gordura. Estou me sentindo simplesmente entupida de tanta carne. Sei que a minha cabeça tem que mudar com a cirurgia, porque se continuar sendo uma cabeça de gordo, vou ter problemas sérios, escreveu.