BUSCA

 


Não existe milagre
Efeito sanfona
Como o organismo controla nossa vontade de comer
Os perigos das fórmulas emagrecedoras
Obesidade infantil
Como tratar a obesidade infantil
Obesidade na adolescência
Obesidade e hipertensão
Cuidados com a pressão arterial
Obesidade e diabetes
Como tratar o diabetes
Anorexia nervosa
O pesadelo da bulimia
Compulsão alimentar
Obesidade grave
Cirurgia bariátrica







Compulsão alimentar

- Acordo com tanta fome que entro em pânico. Me dá pânico de chorar igual criança”, conta a cabeleireira Maria Isabel Santos Soares. 

Vamos somar as calorias do que Maria Isabel come na primeira refeição do dia:

  • Duas fatias de pão de forma com patê de atum com azeitona verde - 526 kcal;
  • Um pão francês com requeijão (1 colher de sopa) - 230 kcal;
  • Um pão francês com salaminho (6 fatias) - 240 kcal;
  • Uma xícara de iogurte (200 ml) - 174 kcal;
  • Um pão com mortadela (3 fatias) e requeijão (1 colher de sopa) - 520 kcal;
  • Uma xícara de café com açúcar - 38 kcal;
  • Três fatias de salaminho - 50 kcal;
  • Duas colheradas de patê de atum com azeitona verde (1,5 colher de sopa de atum, 1 colher de sopa de maionese, 1 colher de sobremesa de azeitona) - 380 kcal;
  • Uma xícara de iogurte - 174 kcal;
  • Uma fatia de mortadela - 97 kcal.

Soma Total - 2163 kcal

Comer compulsivo é um transtorno caracterizado por episódios em que a pessoa ataca a comida. É capaz de comer uma quantidade absurda de alimentos num curto espaço de tempo.

Maria Isabel - Comi pão de sal (francês), um, dois, três. Começo a comer, mas não sei dizer quantos pães como na realidade. Porque mesmo comendo tudo isso, começo a conversar e quando vi comi quatro, cinco pãezinhos e é como se não tivesse comido nada. Eu ainda estou sentindo vontade de comer. Tomei café, se fosse para sentar e tomar outro café eu tomaria.

Nas crises, o comedor compulsivo perde o controle e não consegue parar de comer. Depois, fica arrependido, com sensação de culpa.

- Qualquer coisa me magoa, me fere. Tenho vontade de chorar muito, lamenta a cabeleireira.

Existe uma diferença entre o comedor compulsivo e as pessoas que simplesmente comem muito: a sensação de perda de controle.

Maria Isabel - Se eu ficar nervosa, mais irritada, aí como mais. Eu já cheguei numa crise de raiva de mim mesmo, chegar a comer dez pãezinhos com mortadela com dois litros de refrigerante. Assim, brincando e chorando...

Ao contrário do que acontece na bulimia nervosa, aqui não existem os vômitos, laxantes e diuréticos. A tendência é comer exageradamente sempre, mesmo sem fome.

Na adolescência, Isabel era magrinha.

- Eu pesava 55 quilos, eu nunca passei de 50, 65 no máximo. E hoje eu estou com 120, diz.

Ela não sabe explicar como aconteceu. De repente, a fome parecia não ter fim. Nos episódios de comer compulsivo, ocorre um desequilíbrio nos mediadores que controlam a saciedade, aquela sensação de que já estamos com o estômago cheio.

- Tem vezes que sinto que a minha barriga está pesada, angustiante. E mesmo assim sinto vontade de comer, não consigo segurar, admite.

- Para fazer o diagnóstico de comer compulsivo precisa ter pelo menos dois dias da semana apresentando episódio de compulsão alimentar bem caracterizado, por pelo menos seis meses, explica psiquiatra Alexandre Azevedo (IPQ-HCFMUSP).

Entre os obesos, 20% sofrem desse transtorno. Entre os portadores de obesidade grave o número chega a 50%.

Maria Isabel tem 33 anos. Tinha um salão de cabeleireiro e vida ativa. Por causa da obesidade, praticamente parou de trabalhar. Hoje, quase não sai de casa.

Maria Isabel - Me dá vontade de chorar. Me sinto bastante incomodada quando saio na rua, de estar num lugar, de estar parada e, só porque você é gorda, está incomodando e que sua roupa não está dando certo para aquela ocasião. Isso dói. Muito, lamenta.

Dr. Drauzio - Existe um tipo psicológico que teria mais risco de desenvolver um comer compulsivo?

Dr. Alexandre Azevedo – São as pessoas com tendência a desenvolver depressão e que são bastante ansiosas no dia-a-dia.

De cada cinco comedores compulsivos, um sofre de depressão. Esse índice é treze vezes maior do que o diagnosticado nos outros obesos.

Maria Isabel - Ninguém sente o que a gente está sentindo. Há um tempo atrás ia dizer que estava me sentindo muito mal. Hoje eu estou melhor. Aceitar minha doença me fez melhorar.

Dr. Drauzio - Como se trata o comer compulsivo?

Dr. Alexandre Azevedo - Os primeiros cuidados são nutricionais. Associados, em princípio, com a orientação psicológica, a psicoterapia. Por fim, se esses dois recursos falharem, há indicação medicamentosa.

Há um ano, Isabel começou o tratamento num grupo de comedores compulsivos. 

- O que me levou a procurar ajuda foi quando eu desisti de viver. Chegou uma hora que eu estava desistindo de viver, desistindo de tudo, lembra.

Dr. Drauzio – Quais as dicas que podemos deixar para os portadores de comer compulsivo?

Alexandre Azevedo - São dicas simples, do tipo respeitar sempre os horários das refeições principais, assim como evitar sempre a sensação de fome, porque ela vem acompanhada de um desejo maior e a chance de ter uma voracidade na ingestão alimentar é maior. 

Maria Isabel - Eu queria aprender a lidar com a sensação da fome, a fome continua mas está diferente. Aquela Isabel, um monstro, era um monstro. O descontrole. O monstro que devora qualquer coisa.

O fantasma do descontrole pode assombrar outro tipo de comedor compulsivo. Gente como o empresário Paulo Marzocca, que durante a noite...

- Parece que tem despertador. É à uma da manhã, às duas, às três, de hora em hora, certinho.

Paulo levanta e come. Come em quantidades assustadoras. Ele sofre da chamada síndrome alimentar noturna, um transtorno pouco conhecido. Seus portadores costumam comer normalmente durante o dia. Mas, no meio da noite, são despertados por alterações químicas que acontecem no cérebro e provocam um desejo incontrolável de assaltar a geladeira.

Paulo Marzocca - Eu não resisto. Chego a comer oito pãezinhos. E isso jamais acontece durante o dia. Coisas que eu não gosto durante o dia, bacon eu não como durante o dia. À noite chego a comer bacon cru.

Quem sofre da síndrome alimentar noturna, um transtorno descrito pela primeira vez na década de 1950, não consegue controlar o impulso de levantar da cama e atacar a geladeira. Entre 19h e 6h da manhã, o portador da síndrome devora mais da metade do que consome durante o dia todo.

Paulo Marzocca - Parece que sou um drogado que tem necessidade da cocaína. Dá um desespero!.

Quando a compulsão começou, Paulo estava com 20 anos. Hoje, tem 57. Durante todo esse tempo, engordou e emagreceu várias vezes. Em agosto de 2004, pesava 115 quilos. Decidiu perder peso.

- No jantar a minha mulher manda a empregada fazer refeição a base de soja. Eu gosto de soja, salada..., ensina.

- Ele come comida balanceada, verdura, arroz, feijão, relata Renata Dias da Silva, empregada de Paulo.

Depois que começou a caminhar, Paulo perdeu peso. Perdeu 20 quilos. Mas, os ataques noturnos à geladeira, atrás de alimentos altamente calóricos, atrapalham o esforço que ele faz durante o dia.

- Já cheguei a comer oito pãezinhos. Uma pizza inteira, bacon. Salgado. Eu procuro salgado, confessa.

A medicina conhece mal o gatilho que dispara esse mecanismo. Mas, sabe-se que pelo menos dois mediadores estão envolvidos. Um deles é a melatonina, responsável pelo início e pela manutenção do sono. O outro é a lepitina produzida pelo tecido gorduroso que vai agir no cérebro, nos centros da fome e da saciedade. Essas alterações no equilíbrio dessas substâncias é que fazem Paulo acordar com a fome insaciável, essa vontade de comer que não consegue controlar.

Alexandre Azevedo - Por se tratar de uma doença nova, o comer compulsivo ainda não tem tratamento estabelecido. A intervenção nutricional, muitas vezes, não funciona. Em princípio, o tratamento é medicamentoso. O objetivo desses medicamentos é que a gente possa controlar o apetite do paciente num período noturno, que a gente possa controlar um bom período de sono.

Paulo começa a entender também que tem um transtorno para o qual existe tratamento. E aguarda uma vaga no mesmo grupo de Maria Isabel, que afirma: 

- Tem tratamento, Vamos tratar. Eu preciso tratar. Quero emagrecer, me sentir bem.