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![]() Compulsão alimentar - Acordo com tanta fome que entro em pânico. Me dá pânico de chorar igual criança”, conta a cabeleireira Maria Isabel Santos Soares. Vamos somar as calorias do que Maria Isabel come na primeira refeição do dia:
Soma Total - 2163 kcal Comer compulsivo é um transtorno caracterizado por episódios em que a pessoa ataca a comida. É capaz de comer uma quantidade absurda de alimentos num curto espaço de tempo. Maria Isabel - Comi pão de sal (francês), um, dois, três. Começo a comer, mas não sei dizer quantos pães como na realidade. Porque mesmo comendo tudo isso, começo a conversar e quando vi comi quatro, cinco pãezinhos e é como se não tivesse comido nada. Eu ainda estou sentindo vontade de comer. Tomei café, se fosse para sentar e tomar outro café eu tomaria. Nas crises, o comedor compulsivo perde o controle e não consegue parar de comer. Depois, fica arrependido, com sensação de culpa. - Qualquer coisa me magoa, me fere. Tenho vontade de chorar muito, lamenta a cabeleireira. Existe uma diferença entre o comedor compulsivo e as pessoas que simplesmente comem muito: a sensação de perda de controle. Maria Isabel - Se eu ficar nervosa, mais irritada, aí como mais. Eu já cheguei numa crise de raiva de mim mesmo, chegar a comer dez pãezinhos com mortadela com dois litros de refrigerante. Assim, brincando e chorando... Ao contrário do que acontece na bulimia nervosa, aqui não existem os vômitos, laxantes e diuréticos. A tendência é comer exageradamente sempre, mesmo sem fome. Na adolescência, Isabel era magrinha. - Eu pesava 55 quilos, eu nunca passei de 50, 65 no máximo. E hoje eu estou com 120, diz. Ela não sabe explicar como aconteceu. De repente, a fome parecia não ter fim. Nos episódios de comer compulsivo, ocorre um desequilíbrio nos mediadores que controlam a saciedade, aquela sensação de que já estamos com o estômago cheio. - Tem vezes que sinto que a minha barriga está pesada, angustiante. E mesmo assim sinto vontade de comer, não consigo segurar, admite. - Para fazer o diagnóstico de comer compulsivo precisa ter pelo menos dois dias da semana apresentando episódio de compulsão alimentar bem caracterizado, por pelo menos seis meses, explica psiquiatra Alexandre Azevedo (IPQ-HCFMUSP). Entre os obesos, 20% sofrem desse transtorno. Entre os portadores de obesidade grave o número chega a 50%. Maria Isabel tem 33 anos. Tinha um salão de cabeleireiro e vida ativa. Por causa da obesidade, praticamente parou de trabalhar. Hoje, quase não sai de casa. Maria Isabel - Me dá vontade de chorar. Me sinto bastante incomodada quando saio na rua, de estar num lugar, de estar parada e, só porque você é gorda, está incomodando e que sua roupa não está dando certo para aquela ocasião. Isso dói. Muito, lamenta. Dr. Drauzio - Existe um tipo psicológico que teria mais risco de desenvolver um comer compulsivo? Dr. Alexandre Azevedo – São as pessoas com tendência a desenvolver depressão e que são bastante ansiosas no dia-a-dia. De cada cinco comedores compulsivos, um sofre de depressão. Esse índice é treze vezes maior do que o diagnosticado nos outros obesos. Maria Isabel - Ninguém sente o que a gente está sentindo. Há um tempo atrás ia dizer que estava me sentindo muito mal. Hoje eu estou melhor. Aceitar minha doença me fez melhorar. Dr. Drauzio - Como se trata o comer compulsivo? Dr. Alexandre Azevedo - Os primeiros cuidados são nutricionais. Associados, em princípio, com a orientação psicológica, a psicoterapia. Por fim, se esses dois recursos falharem, há indicação medicamentosa. Há um ano, Isabel começou o tratamento num grupo de comedores compulsivos. - O que me levou a procurar ajuda foi quando eu desisti de viver. Chegou uma hora que eu estava desistindo de viver, desistindo de tudo, lembra. Dr. Drauzio – Quais as dicas que podemos deixar para os portadores de comer compulsivo? Alexandre Azevedo - São dicas simples, do tipo respeitar sempre os horários das refeições principais, assim como evitar sempre a sensação de fome, porque ela vem acompanhada de um desejo maior e a chance de ter uma voracidade na ingestão alimentar é maior. Maria Isabel - Eu queria aprender a lidar com a sensação da fome, a fome continua mas está diferente. Aquela Isabel, um monstro, era um monstro. O descontrole. O monstro que devora qualquer coisa. O fantasma do descontrole pode assombrar outro tipo de comedor compulsivo. Gente como o empresário Paulo Marzocca, que durante a noite... - Parece que tem despertador. É à uma da manhã, às duas, às três, de hora em hora, certinho. Paulo levanta e come. Come em quantidades assustadoras. Ele sofre da chamada síndrome alimentar noturna, um transtorno pouco conhecido. Seus portadores costumam comer normalmente durante o dia. Mas, no meio da noite, são despertados por alterações químicas que acontecem no cérebro e provocam um desejo incontrolável de assaltar a geladeira. Paulo Marzocca - Eu não resisto. Chego a comer oito pãezinhos. E isso jamais acontece durante o dia. Coisas que eu não gosto durante o dia, bacon eu não como durante o dia. À noite chego a comer bacon cru. Quem sofre da síndrome alimentar noturna, um transtorno descrito pela primeira vez na década de 1950, não consegue controlar o impulso de levantar da cama e atacar a geladeira. Entre 19h e 6h da manhã, o portador da síndrome devora mais da metade do que consome durante o dia todo. Paulo Marzocca - Parece que sou um drogado que tem necessidade da cocaína. Dá um desespero!. Quando a compulsão começou, Paulo estava com 20 anos. Hoje, tem 57. Durante todo esse tempo, engordou e emagreceu várias vezes. Em agosto de 2004, pesava 115 quilos. Decidiu perder peso. - No jantar a minha mulher manda a empregada fazer refeição a base de soja. Eu gosto de soja, salada..., ensina. - Ele come comida balanceada, verdura, arroz, feijão, relata Renata Dias da Silva, empregada de Paulo. Depois que começou a caminhar, Paulo perdeu peso. Perdeu 20 quilos. Mas, os ataques noturnos à geladeira, atrás de alimentos altamente calóricos, atrapalham o esforço que ele faz durante o dia. - Já cheguei a comer oito pãezinhos. Uma pizza inteira, bacon. Salgado. Eu procuro salgado, confessa. A medicina conhece mal o gatilho que dispara esse mecanismo. Mas, sabe-se que pelo menos dois mediadores estão envolvidos. Um deles é a melatonina, responsável pelo início e pela manutenção do sono. O outro é a lepitina produzida pelo tecido gorduroso que vai agir no cérebro, nos centros da fome e da saciedade. Essas alterações no equilíbrio dessas substâncias é que fazem Paulo acordar com a fome insaciável, essa vontade de comer que não consegue controlar. Alexandre Azevedo - Por se tratar de uma doença nova, o comer compulsivo ainda não tem tratamento estabelecido. A intervenção nutricional, muitas vezes, não funciona. Em princípio, o tratamento é medicamentoso. O objetivo desses medicamentos é que a gente possa controlar o apetite do paciente num período noturno, que a gente possa controlar um bom período de sono. Paulo começa a entender também que tem um transtorno para o qual existe tratamento. E aguarda uma vaga no mesmo grupo de Maria Isabel, que afirma: - Tem tratamento, Vamos tratar. Eu preciso tratar. Quero emagrecer, me sentir bem. |
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