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![]() O drama de quem vive a anorexia - Me olho no espelho hoje e estou achando que a minha barriga está muito grande. Preciso diminuir um pouco do que estou comendo, tomar menos líquido também, porque parece que dilata muito o meu estômago, diz Rafaela. Uma legião de meninas aprende, desde cedo, que ser magra é ser bonita. E, quanto mais magra, mais bonita. Com certeza você já viu Jeisa Chiminazzo. Ela está em várias revistas de moda, no mundo inteiro. Jeisa é modelo de sucesso. Começou a trabalhar aos 13 anos. E hoje, com 19, pode estar no Brasil, em Paris, Tóquio, Milão ou Nova York, onde mora. Ela conta que participa de 58, 60 desfiles em um mês. Dr. Drauzio - Vamos começar calculando o seu índice de massa corpórea. Qual é o teu peso e qual é a sua altura? Jeisa Chiminazzo - Peso 48 quilos e meço 1,77m. O IMC é calculado dividindo-se o peso pela altura ao quadrado. Uma pessoa com peso saudável tem IMC entre 18,5 e 24,9. Abaixo de 18,5, a pessoa está subnutrida. Dr. Drauzio - Seu IMC está baixo: 15,32. Muito baixo. Jeisa Chiminazzo - No mundo da moda, tem que ser bem magra. Pra fazer desfile tem que ser magra. Jeisa é muito magra. No cálculo do IMC, cai na faixa de subnutrição. A imagem dela traduz um padrão de beleza que se tornou moda a partir da década de 1960 e hoje virou regra. Jeisa Chiminazzo - Com treze anos se é mais magra. Aí, aos 15, normalmente as meninas dão uma engordadinha, por causa dos hormônios. Vão ganhando corpo de mulher. E os clientes não entendem isso, eles querem você do jeito que era antes. Pouquíssimas pessoas no planeta são assim tão magras e podem comer de tudo sem engordar. Mas muitas meninas sonham com um corpo sem nenhum grama de gordura. - Tudo o que como parece que fica parado aqui na minha barriga e não gasto. Estou desesperada, dá vontade de descer na cozinha e tomar muito laxante, mas não tem mais porque minha mãe jogou tudo fora. Dá vontade de fazer com que saia tudo o que comi agora, me dá desespero, confessa Rafaela. Em 1998, quando estava com 13 anos, Rafaela pesava 36 quilos e ficou nove meses sem menstruar. Diagnóstico: anorexia nervosa, um distúrbio alimentar e psiquiátrico grave. As principais características da anorexia são menstruação interrompida, perda acentuada de peso e, ao mesmo tempo, um medo mórbido de engordar. - Moça com anorexia tem IMC muito abaixo do normal e uma visão do corpo distorcida. Ela se sente extremamente gorda e diz pra gente - Olhe como estou enorme, estou obesa -, conta o Táki Cordás, psiquiatra do Ambulim. Rafaela - Eu prefiro nem olhar pra minha barriga, pois tenho pavor do meu estômago estar dilatando. Eu estou muito desesperada. Nem gosto de ver. A negação da magreza e a diminuição da auto-estima são características da doença. A preocupação com o peso toma conta do dia-a-dia das pessoas com anorexia. Dr. Drauzio - Que porcentagem do tempo do seu dia você gasta pensando em comida, em alimento? Rafaela - Acho que 24. Porque eu até sonho com comida. Uma vez, sonhei que estava comendo um cachorro quente e tive de levantar, tive de ir ao banheiro, mas não sabia o que fazer pra tirar aquilo de dentro de mim. Anorexia quer dizer perda do apetite e é o que acontece depois que a doença se instala. No início, as meninas ainda sentem fome, mas lutar contra a fome se transforma num prazer doentio. Rafaela - Fiz umas fotos em 1998, quando tive a primeira vez anorexia, e cheguei a pesar 36 quilos. Quando fez essas fotos, a família de Rafaela tentava desesperadamente fazer com que ela enxergasse a própria magreza. - Meu filho trouxe uma revista mostrando as anoréticas. Quando nós mostramos para Rafaela achou tudo normal, lembra a mãe de Rafaela. Rafaela - Eles compraram um filme e pediram para eu ficar na posição em que estavam as meninas. Tiraram fotos. Quando a gente revelou, que foi no dia seguinte, me deu tamanho o desespero, porque me achei imensa de gorda. Anorexia nervosa é um transtorno alimentar quase exclusivo das mulheres. Elas constituem 95% dos casos e o número não pára de aumentar, principalmente na faixa dos 12 aos 18 anos. Infelizmente, na internet há vários sites em que meninas anoréticas trocam receitas para emagrecer cada vez mais e exibem com orgulho seus corpos esquálidos. - A internet prejudica muito, porque ela bate papo com outras anoréticas, reclama a mãe. Rafaela - É ruim quando dá a notícia de que alguma menina com quem a gente teclava morreu ou está internada. Mas, a gente não esquenta muito com isso. Me sinto forte, e sei até onde posso chegar para não morrer. Dr. Táki Cordás - Essa é uma das complicações, porque a menina com anorexia, em geral, pensa que está bem, que quer emagrecer, e que os que se opõem a esse desejo pessoal estão loucos. Dr. Drauzio - Existe alguma forma, algum tipo de atitude pra qual os pais devam estar atentos? Dr. Táki Cordás - Acho que a primeira coisa é se observar se, a olhos vistos, a menina começa a emagrecer, a fazer dieta e a restringir drasticamente a ingestão de alimentos. Rafaela - O pior pra mim é o açúcar. Eu não gosto nem de pegar no pote de açúcar. Dr. Táki Cordás - Em geral, pacientes com anorexia mostram excesso de controle com a alimentação. Vão até a cozinha para ver como está sendo feito determinado prato e pedem para diminuir óleo. Rafaela - Tudo o que eu como eu que preparo, ninguém coloca a mão. Porque eu não confio. Eu já confiei na minha avó, confiei na minha mãe. Elas querem colocar um pouco de azeite, daí não como. Dr. Drauzio - No caso de os pais perceberem isso, devem fazer o quê? Táki Cordás - A primeira coisa a fazer é identificar a doença e melhorar o ambiente familiar. Muitas vezes, as portadoras de anorexia nervosa conseguem esconder seu drama, durante anos. - Quando vimos que a Rafa estava com anorexia deu um sentimento de culpa muito grande. Porque trabalho em escola, cuido do filho dos outros e não percebi que minha filha estava precisando, pedindo socorro, lamenta a mãe. È importante reconhecer os primeiros sintomas. Quanto mais precocemente a doença for identificada, melhor o resultado. Em maio de 2004, Rafaela conseguiu finalmente começar um tratamento. Ela pesava 40 quilos. - Os médicos quiseram interná-la, e até cheguei a ligar pra mãe dela, porque ela ficou sem ânimo pra nada. Ela não levantava pra nada, nem pra ir à faculdade, conta Cássia Santos, nutricionista. Rafaela - Tinha noites que eu tinha que subir a escada com a ajuda da minha mãe, porque as pernas não agüentavam. Mãe - O corpo não agüenta o peso e ela acaba caindo. Mas não é queda de altura, é da doença. Porque ela toma dois litros de água antes de sair de casa pra sentir o corpo mais pesado. Rafaela - Eu coloco oito gotas de adoçante, venho aqui e deixo encher bem. Água gelada. E pego o leite e falo que coloco uma colher de sopa, mas na verdade eu apenas pingo. É o suficiente. A desnutrição crônica causada pela anorexia nervosa provoca uma série de complicações. 1) Diminuição do tamanho das mamas e dos ovários, suspensão das menstruações. - “Há dois anos eu não menstruo”, confirma Rafaela -. 2) Penugem pelo corpo, pele seca e queda de cabelo. Frio excessivo. - Quando está frio, eu tenho que sair de casa com pelo menos cinco calças, meia calça e tudo, é o que diz Rafaela. 3) Enfraquecimento dos músculos e osteoporose, facilidade de fraturas. - Me machuco. Tanto é que tenho hematomas nas costas, nas pernas. Os ossos ficam marcados, ficam roxos, complementa Rafaela. Anorexia provoca também dificuldade de raciocínio e perda de memória. É uma doença grave. De 15% a 20% dos casos acabam em morte. Dr. Drauzio - Quais são as armas que vocês têm para tratar da anorexia? Existem medicamentos eficazes? Dr. Táki Cordás - Algumas medicações melhoram um pouco o humor, um pouco a ansiedade, estimulam o ganho de peso. Mas, o tratamento medicamentoso não é o principal. O principal é o trabalho de uma equipe multidisciplinar, que inclui terapia individual, um pouco de remédio e orientação nutricional. Rafaela - Hoje eu estou bem feliz porque eu voltei a colocar azeite na comida, meia colherinha de chá, acho que uma de café. Talvez menos ainda, mas eu voltei a colocar. Que eu tinha parado. E hoje eu consegui comer uma castanha do Pará inteirinha, porque geralmente eu comia metade. É um processo lento, demorado. Mas aos poucos, Rafaela melhora. Rafaela – Hoje,eu fui à nutricionista. Depois de quinze dias de reeducação alimentar, acabei recuperando um quilo e meio. Foi o máximo que eu já consegui com o tratamento. Eu fiquei surpresa. Sei que os pensamentos voltarão, quando eu estiver sozinha em casa. A anorexia nervosa é uma doença crônica que exige tratamento prolongado. Os mecanismos que levam a ela persistem por muito tempo. Rafaela - Eu acho que é muito difícil, tem que ter muita vontade para seguir o tratamento. Oito meses depois de começar o tratamento, Rafaela comemora um novo peso: - No início do tratamento eu tinha 40,8 quilos. Agora eu estou com 50,1 quilos, praticamente dez quilos a mais – e uma nova atitude: Quero trabalhar, fazer minha vida, virei a página. Rafaela é uma moça linda! Dos 13 aos 20 anos, experimentou o inferno de perseguir uma imagem corpórea que é incompatível com a vida. Rafaela - Era evidente a tristeza que eu estava. Eu não queria viver. Com 14 anos, eu parei de viver. |
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