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Saiba como se prevenir e tratar o diabetes

- Eu não sentia nada, não tinha os sintomas de diabetes. Eu não sabia que eu era diabética” , conta Cristiane Borancelli, auxiliar de enfermagem aposentada.

No início, diabetes é uma doença silenciosa, sem sintomas. Quando eles aparecem, os níveis de açúcar no sangue já estão muito acima do normal. Com Cristiane, foi assim que aconteceu: quando ia ser admitida em um novo emprego, descobriu que estava com a doença.

Cristiane Borancelli - Fui fazer os exames médicos para começar no trabalho. Fiz os exames. A médica me disse que eu tinha diabetes.

O diagnóstico de diabetes é feito por meio de um exame de sangue, colhido pela manhã, em jejum. Resultado entre 70 e 99 indica que a glicemia está normal. De 100 a 125, acende a luz vermelha: já existe intolerância à glicose. E acima de 125, é sinal de que o diabetes está instalado.

- Eu era enfermeira, trabalhava nas Clínicas, no Instituto da Criança. Trabalhava sem parar. Eu cuidava da casa, da família, cuidava da minha mãe, cuidava de tudo , recorda Cristiane que nunca mais pôde voltar ao trabalho. Hoje, aos 34 anos, precisa que cuidem dela. Tem vários problemas de saúde.Tenho infecção no útero e na bexiga, revela.

Ela também tem problemas nos pés e nas pernas - No começo a perna só inflamava, lembra. Cristiane também tem problema nos olhos - Eu estou com a vista direita sem enxergar nada, diz.

Infelizmente, no Brasil, a maioria dos diabéticos enfrenta as mesmas dificuldades de Cristiane. Apenas uma minoria consegue lidar com a doença de maneira correta: medicamentos adequados, exames de rotina, atividade física regular e cuidados com a alimentação que transformam o diabetes em uma enfermidade crônica, com a qual é perfeitamente possível conviver.

- Normalmente, faço a medição de glicose três vezes por dia: pela manhã, depois do café, depois do almoço e depois do jantar. Essas são as minhas medidas de parâmetro que eu uso para ver o que posso comer naquele dia e o que eu não posso , explica o gerente de vendas Valentim Hissnauer, de 50 anos, portador de diabetes.

Valentim tem uma vida agitada. Viaja durante 20 dias por mês. É complicado, mas ele consegue seguir a dieta determinada pelo médico.

Dr. Marcello Bronstein (professor de Endocrinologia da USP) - O que é importante é a retirada de açúcares altamente calóricos e que rapidamente são absorvidos, ou seja, que têm um índice glicêmico alto como os doces. As refeições devem ser, realmente, divididas em várias pequenas ao dia,.

Valentim Hissnauer - Se acordo de manhã e meu índice glicêmico está elevado, durante esse dia evito, sobremaneira, comer carboidratos. Eu procuro fazer refeições leves, à base de folhas, frango grelhado e absolutamente nenhum doce. Nem os doces diets que existem eu não uso mais.

Dr. Drauzio - A partir do momento que você descobriu que era diabético sua vida mudou muito?

Valentim Hissnauer - Sim, mudou. Não que tenha ficado triste, mas minha vida mudou, sim. Eu tive que me regrar, coisa que nunca na vida tinha acontecido.

Apenas uma regra Valentim não consegue cumprir: a rotina de exercícios físicos. Ele explica:

- Não tenho disposição. As vezes que eu fiz, porque me despertou uma vontade de fazer, fiz por 30 dias seguidos e me deu satisfação fazer.

Dr. Drauzio - Quantos quilos você perdeu?

Valentim Hissnauer - Eu perdi dez quilos.

Dr. Drauzio - E aí, o que aconteceu com a glicemia?

Valentim Hissnauer – Com a perda desses 10 quilos, de uma média de 270, que era o meu nível glicêmico, caiu para 150, 160.

Os remédios para diabetes reduzem a tolerância à glicose ou fazem com que o pâncreas produza mais insulina. O mesmo efeito ocorre quando emagrecemos. Sem exercícios, Hissnauer emagrece mais devagar e precisa da insulina e de outros medicamentos para controlar a doença.

Depois de fazer o exame, Hissnauer entra em contato com o médico.

- A gente discute até por e-mail. A tecnologia está aí para ser usada, conta. E, se necessário, ele toma insulina na dose que o médico prescreveu.

Valentim Hissnauer. Eu tenho uma forma nova de aplicar insulina. É uma caneta. Eu tiro a tampa, coloco uma agulha. Giro um botãozinho, até a medida de insulina que o médico me mandou tomar.

Dr. Drauzio - Isso tem um preço, não tem.

Valentim Hissnauer – Tem preço, sim, e é um preço alto. Acredito que eu deva gastar uns mil reais por mês com os medicamentos, controles e insulina. Eu tomo uma das mais modernas insulinas que existe. Isso é caro, isso é muito caro.

Assim como Valentim Hissnauer, Cristiane também deveria fazer o controle do diabetes, mas não consegue. Ela ganha R$ 700,00 por mês. Para medir a glicose, pelo menos duas vezes por dia, precisa de fitas para o aparelho. E ainda tem que comprar insulina, um outro remédio para o diabetes e mais um para a pressão. Se fosse pagar por tudo isso, gastaria mais da metade do salário.

- Eu estou sem médico, praticamente, e sem tratamento, diz Crisitane.

O Brasil tem 5 milhões de diabéticos. Desses, 4 milhões dependem do SUS para o tratamento. Sem ter como pagar pelos medicamentos, Cristiane precisa recorrer aos postos de saúde. O Sistema Único de Saúde (SUS), deve dar assistência integral à pessoa portadora de diabetes. Isto já é lei em vários estados brasileiros. Em São Paulo, onde ela mora, a lei está em vigor desde 2001.

- Eu tenho dez receitas, mas consigo apenas um remédio das dez receitas, reclama a auxiliar de enfermagem.
 
Sem tratamento, Cristiane apresenta muitas complicações do diabetes não controlado. As mais limitantes são provocadas pelas dificuldades circulatórias e pelas neuropatias que atingem, principalmente, as pernas e os pés.

Cristiane Borancelli - Se eu colocar as pernas para baixo, os pés ficam com as veias pretas. Daqui a pouco, se eu sentar no sofá, e erguer as pernas um pouquinho, eles clareiam de novo. É má circulação: o sangue não chega lá.

Dr. Drauzio – E sensação de formigamento, você tem nas pernas?

Cristiane Borancelli – Eu estou com a coxa, até o joelho, como se estivesse adormecida. Você está falando comigo, e eu não estou sentindo a perna. Não tem sensibilidade.

Dr. Drauzio – Alguma vez explicaram para você quais são os cuidados que o diabético tem que tomar com os pés?

Cristiane Borancelli – Nunca.

Dra. Cândida Parisi (coordenadora ambulatorial)- Alguns cuidados diários e freqüentes com os pés são obrigatórios para o paciente diabético. Primeiro,é preciso fazer a prática do auto-exame. Todo paciente que tem pé diabético precisa examinar, regularmente, os seus pés, pelo menos uma vez por dia, depois do banho. Ele não pode se esquecer de que a chance de ter uma ferida, de ter uma úlcera, sem perceber, é muito grande.

Os níveis altos de açúcar no sangue causam problemas circulatórios que afetam as terminações nervosas. Surgem as neuropatias. Com elas, o diabético perde parte da sensibilidade nos pés.

Dra. Cândida Paris - A gente tem casos de pacientes que ficaram 10, 15 dias com um prego dentro do pé sem sentir nada.

Por isso, uma das recomendações é usar meias claras, para que qualquer sangramento seja visível. Também é preciso usar um sapato bem confortável.

Cristiane Borancelli - O único que consigo usar é um chinelinho. Outro sapato nem entra.

Dr. Drauzio – E além desses problemas com as pernas e os pés, você tem problemas de visão por causa do diabetes?

Cristiane Borancelli – Vira e mexe a vista paralisa. Eu tenho problema com a luz. Quando bate claridade eu sinto a dor e não enxergo. Só que, um dia, a vista paralisou e eu não voltei mais a enxergar da vista direita.

Dr. Drauzio – Quanto tempo faz isso?

Cristiane Borancelli – Faz um mês. O médico endocrinologista pediu para fazer um exame de fundo de olho para ver se tive derrame na vista.

- Cristiane, você tem uma retinopatia diabética nos dois olhos, diagnostica a oftalmolosita Amaryllis Avakian.

A retina é a camada interna do olho, encarregada de receber as imagens que vemos. É um tecido cheio de vasos sanguíneos. A retinopatia diabética é conseqüência de alterações que acontecem nesses vasos, pelo excesso de açúcar no sangue.

Dra. Amaryllis Avakian - A retinopatia causa cegueira em muitos pacientes. Aliás, é a principal causa de cegueira em pessoas em idade economicamente ativa que temos no mundo todo. Cerca de 12% das pessoas cegas são por retinopatia diabética. Então, é uma doença muito grave.

A médica explica que, durante o tratamento de Cristiane vai fazer aplicação de laser, uma fotocoagulação, para ver se consegue estancar a hemorragia e impedir que a retinopatia como um todo progrida.

Dra. Amaryllis Avakian - O controle da glicemia é fundamental. Se o paciente não controlar a glicemia, não adianta vir no hospital, não adianta vir todo dia fazer aplicação de laser, que de nada serve. Todo paciente diabético deve ter por objetivo o controle da glicemia para evitar não só a retinopatia, mas todas as outras alterações que a doença provoca no corpo inteiro.

Crisriane Borancelli – Eu me sinto como se tivesse chegado aos cem anos de idade, lamenta.