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Inferno de mosquitos

No verão, os mosquitos viravam uma praga insuportável.
Na beira dos rios, era quase impossível comer qualquer coisa,
porque entrava mais mosquito do que alimento quando se abria a boca.
A solução era comer praticamente com a cabeça debaixo
d’água. Certa vez, apareceu por lá um americano
levando um equipamento que ele dizia ser sensacional: uma espécie
de máscara com zíper que se abria na hora de levar o alimento
à boca. Quando foi fazer a demonstração, porém,
e puxou o zíper, foram tantos os insetos que entraram pela abertura
que ele quase enlouqueceu.
As noites, ali, se transformavam num verdadeiro inferno. A única
coisa que ajudava a afugentar um pouco as nuvens densas que nos rodeavam
era fazer um fumaceiro. Acontece que ninguém agüentava respirar
por muito tempo no meio da fumaça e bastavam alguns passos de
distância para que eles voltassem a atacar. No acampamento, havia
mosqueteiros que poderiam ser usados para nos proteger enquanto dormíamos.
Todavia, por relaxamento, porque ficava muito quente ou dava muito trabalho,
ou porque alguns conseguiam entrar e presos lá dentro se refestelavam
com nosso sangue, a proteção acabava sendo posta de lado.
E era pium, maruim, borrachudo, muriçoca - o transmissor da malária
- e o carunchinho que não voa nem pica, mas caminha por nosso
corpo e provoca uma coceira danada. Por sorte, com o tempo as picadas
vão imunizando a gente. Vai-se criando uma certa resistência
às picadas e a coceira parece diminuir.
No entanto, todos pegamos malária. Por quê? Porque o civilizado,
por comodidade ou segurança, constrói as casas na beira
do rio e o mosquito transmissor da doença só precisa de
água para proliferar. Se elas fossem construídas no espigão,
o risco seria menor. Nas aldeias indígenas, é raro encontrar
muriçocas.
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