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Boca Rica

Aqueles sertanejos não conheciam futebol. Fomos nós que
lhes ensinamos alguma coisa a respeito desse esporte, primeiro com uma
bola de pano e depois com uma de borracha que ganhamos de presente.
Dividíamos o grupo em dois times de sete jogadores cada. Era
um jogo bruto. O alvo dos pontapés era mais as canelas dos adversários
do que a bola.
Como ninguém conhecia as regras, cada um inventava sua maneira
própria de jogar. Um deles, por exemplo, não tirava o
facão nem o revólver da cintura: “Quando jogo truco,
não tiro as armas da cinta, por que vou tirar agora?” E
não havia argumento que o convencesse do contrário. Outro,
o Boca Rica, prendia a bola sob o pé no meio do campo enquanto
enrolava o cigarro, acendia e dava uma baforada. Só depois saía
andando devagarinho, controlando a bola e ninguém ousava tomá-la
porque temia sua reação.
Era um tipo pitoresco esse homem. Casmurro, sisudo, de poucas falas,
tinha os dentes todos cobertos de ouro. Um dia, contou-nos sua história.
Tinha vivido no sertão de Goiás, com o pai e um irmão.
Certa feita, os vizinhos desfeitearam o velho. Os dois irmãos
foram tirar satisfação e acabaram matando seis pessoas
daquela família. Vieram os soldados. Três foram mortos
e os outros bateram em retirada. Dias depois, dez soldados apareceram.
Acabar com os dez era mais difícil. Os irmãos resolveram
partir. Um foi para o garimpo de diamantes. Boca Rica preferiu garimpar
ouro a fim de realizar um sonho que acalentava desde menino: cobrir
com esse metal todos os dentes da boca. Teve sorte. Conseguiu a quantidade
de material de que precisava e um dentista para fazer o serviço.
Satisfeito com o resultado, de vez em quando mostrava a dentadura e
perguntava: “Tá alumiando?” e ai de quem dissesse
que não.
Boca Rica trabalhou conosco durante muito tempo sem criar encrenca.
Foi, então, que apareceu em Xavantina, onde estávamos
sediados, uma cabocla que era uma beleza, bonita como ela só.
Sete filhos. Cada um de um pai diferente. O último era filho
de Boca Rica.
Chamava-se Luzia e era muito risonha e extrovertida. Brincava com todo
mundo, mas ninguém mexia com ela. Boca Rica estava sempre por
perto, mal humorado.
Um dia, apareceram por lá dois garimpeiros falantes pedindo para
fazer umas comprinhas no entreposto de abastecimento que havia sido
montado para atender os trabalhadores. Não tardou e Luzia entrou
no armazém, arreliando com o balconista. Um dos estranhos colocou
a mão sobre o ombro da moça no exato momento em que Boca
Rica punha os pés no estabelecimento. O sertanejo não
titubeou: puxou o facão e rasgou a barriga do forasteiro de cima
a baixo. O companheiro, um sujeito baixinho e franzino, viu aquilo e
caiu duro. Morreu de susto.
Luzia passou a mão nos filhos e sumiu. Boca Rica não foi
atrás da cabocla porque a polícia, que eu tinha mandado
chamar, logo estaria por perto e ele precisava se esconder. Não
adiantou. Cinco soldados acabaram localizando o danado. Reagiu a tiros
e matou dois. Esperou que os outros se manifestassem. Silêncio
absoluto. Decidiu sair do esconderijo e foi baleado por um soldado que
se mantivera em tocaia. Boca Rica caiu fingindo-se de morto. O sargento,
para certificar-se de que ele tinha mesmo morrido, arrancou-lhe um dos
olhos com a mira do mosquetão. Nenhuma reação por
menor que fosse. Quando o sargento apontou a arma para a cabeça
do sertanejo, a população do lugarejo pediu-lhe que deixasse
o cadáver em paz.
Boca Rica não tinha morrido. Permaneceu imóvel até
ter certeza de que a polícia se afastara. Depois levantou-se
e foi para o hospital de Aragarças. Imagine a dor que deve ter
sofrido calado! Por sorte, passei por lá num avião da
FAB. Fui vê-lo e o encontrei em péssimo estado. Meti-o
no avião e levei-o para São Paulo. Ficou seis meses internado
no hospital da Faculdade Paulista de Medicina. Quando recebeu alta,
fui buscá-lo. As enfermeiras deram graças a Deus porque
ele já estava se tornando um pouco inconveniente demais. Todavia,
antes de voltarmos para o Xingu, quis passar numa casa especializada
em próteses oculares. Só sossegou quando achou um olho
de vidro de cor semelhante ao que lhe havia sobrado no rosto.
Algum tempo depois, veio me dizer que precisava ir à Barra do
Garça. “Olha, rapaz, se te pegam, eles te prendem”.
Respondeu-me que nada lhe aconteceria se levasse uma carta dizendo que
fazia parte da companhia. Assim foi feito. Boca Rica partiu e matou
mais um naquela cidade.
Para azar dele, porém, tempos mais tarde precisamos de um carpinteiro.
Quando o moço chegou e os dois se olharam, imediatamente se reconheceram.
Era o irmão do homem que ele matara em Barra do Garça.
O rapaz não hesitou. Pegou o revólver e deu um tiro à
queima roupa no Boca Rica que não conseguiu reagir porque o revólver
enganchara em seu cinturão. O rapaz deu o segundo tiro. Boca
Rica cambaleou, dobrou os joelhos e caiu morto. Missão cumprida,
o sujeitinho desapareceu.
Um mês depois fui procurado por um filho de Boca Rica. Veio com
uma conversa estranha, disse que tinha urgência de falar com o
assassino do pai. Tudo papo furado. Tinha mesmo era sede de vingança.
Contei-lhe que ninguém nunca mais tinha visto o tal homem e que,
se eu soubesse onde se metera, chamaria a polícia para prendê-lo.
Assim era a vida naquelas bandas: uma sucessão interminável
de mortes e vinganças!
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