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Marcha para o oeste

Em 1937, saí do exército desempregado. A crise do café
havia abalado
as finanças da família e fui trabalhar na Standard Oil
Company, a Esso do Brasil. Estava sob minha responsabilidade controlar
os estoques de combustível da companhia. Cláudio arranjou
emprego na Telefônica e Leonardo, numa companhia importadora.
Morávamos os três num quarto de pensão no centro
de São Paulo. Cláudio, fanático pelo interior,
comprou um enorme mapa do Brasil e todas as tardes sonhávamos
longas viagens debruçados sobre ele. Disso até o plano
de abandonar os empregos e partir foi só questão de tempo
e oportunidade. O trabalho de Rondon já era conhecido naquela
época e nos servia de estímulo.
Getúlio Vargas governava o país e a convite de Pedro Ludovico,
fundador de Goiânia e governador de Goiás, foi conhecer
a região. Voltou escandalizado. A população brasileira
estava toda concentrada na faixa litorânea. Passando o Araguaia,
o Brasil era pátria dos índios.
Sob a orientação de Getúlio e com o intuito de
promover a interiorização do país, foram criadas
a expedição Roncador-Xingu e a Fundação
Brasil Central. Era época de guerra, não se podia sobrecarregar
o erário e para angariar fundos recorreu-se aos paulistas que
não se negaram a colaborar.
Sabendo que o ministro encarregado de organizar a expedição
estava em São Paulo, fui procurá-lo. Ele não aceitou
contratar-nos porque estavam admitindo somente sertanejos analfabetos,
considerados mais resistentes para assumir tal empreitada.
Apesar do fracasso dessa tentativa, Cláudio e Leonardo partiram
para Goiás Velho e esperaram por mim, que precisava ser demitido
do emprego na Esso. Quando finalmente consegui chegar, caminhamos 170km
até encontrar o rio Araguaia. Compramos uma canoa e remamos 22
dias até atingir o rio das Mortes. Ali a fundação
estava se alicerçando e fomos admitidos como trabalhadores analfabetos.
Entrei como auxiliar de pedreiro. Cláudio e Leonardo foram trabalhar
na enxada para construir o campo de pouso. Descoberto o estratagema,
porém, passei a ser secretário da base; Leonardo, chefe
do almoxarifado e Cláudio, chefe do pessoal.
Tempos depois, parte da expedição rumou para o norte.
O objetivo era transpor o Araguaia e avançar até Manaus.
A bússola do Cláudio nos orientava na travessia dos rios
e nas longas caminhadas por dentro da mata bruta. Quando estávamos
nas margens do rio das Mortes, preparando-nos para entrar na serra do
Roncador, fomos avisados de que na região havia muitas aldeias
de índios. Ficou, então, ajustado que o governo de Goiás
enviaria soldados da polícia, sujeitos recrutados no garimpo,
para fazer a vanguarda da expedição e limpar o caminho.
Quando me inteirei do que realmente isso significava, mandei por um
jornalista do Correio da Manhã, que estava de partida para o
Rio de Janeiro, uma carta para o Marechal Rondon com a notícia
de que os índios daquela área corriam perigo. Por ordem
superior, a operação vanguarda foi suspensa. A expedição
deixou de ser paramilitar e de contar com a ajuda da polícia
goiana.
O chefe da expedição nada comentou a respeito da carta,
mas designou os três irmãos Villas Bôas para seguir
na frente. Levamos conosco quatorze sertanejos contratados no garimpo,
lugar de gente violenta. Era comum ocorrerem duas ou três mortes
por dia nesses lugares o que garantia a fama aos garimpeiros dessa região
de homens sem lei do Brasil Central. No entanto, conseguimos mantê-los
sob controle. Atravessamos onze vezes a serra do Roncador e nenhum tiro
foi desferido apesar de a expedição ser paramilitar e
cada sertanejo receber um mosquetão de 50 tiros.
Para não perder o controle, havia um trabalho de doutrinação
permanente. Todas as noites, reuníamos os sertanejos ao redor
da fogueira e fazíamos uma preleção. Mostrávamos
que os invasores daquelas terras éramos nós. Éramos
nós que ameaçávamos os índios e não
o contrário. Durante todo o tempo que ali permanecemos, só
houve um contratempo. Logo no primeiro dia fomos atacados pelos xavantes.
Um dos trabalhadores ficou muito nervoso e disparou um tiro do mosquetão.
Os índios fugiram. Nós, porém, lhe tomamos a arma
e lhe demos autorização para retornar se quisesse. Ele
ficou e obedeceu às ordens daí em diante.
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