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Contato com os índios calapalos


Vivi perto dos índios durante 48 anos. Os primeiros contatos foram atribulados porque eles guardavam a velha impressão de que o civilizado era um inimigo em potencial o que, na maioria dos casos, era verdade. Só o fato de se concentrarem no coração do Brasil porque tinham sido expulsos da faixa litorânea e de áreas do norte e do oeste é prova suficiente de que eles não deixavam de ter um bocado de razão.
Não tínhamos experiência nenhuma em como estabelecer uma comunicação amistosa com eles. Nossa primeira medida foi controlar nossos trabalhadores que consideravam os índios seus inimigos para que não agissem com agressividade.
Quando terminamos a travessia da serra do Roncador, 480km, e entramos no rio Curuene, deparamo-nos com uma barreira humana formada por mais de duzentos índios. Se tentávamos caminhar, eles nos miravam com suas flechas e nós recuávamos. Esse enfrentamento durou dois dias. No terceiro, porém, por volta do meio-dia, um índio enorme e corpulento fez um gesto para que nos aproximássemos. Temerosos, obedecemos. Os que estavam sob seu comando mantiveram-se afastados, mas continuavam nos observando. Ele repetiu o gesto. Cheguei mais perto e, sem saber que atitude tomar, dei-lhe um abraço. Ele retribuiu, abraçou o Cláudio e o Leonardo, nós nos confraternizamos e fomos levados para a aldeia.
Tratava-se de um índio calapalo, da língua caraíba. Nos dias que permanecemos nessa tribo, a esposa dele adoeceu. Temendo que responsabilizassem nossa presença pela enfermidade da moça e querendo ajudá-la, pedimos medicamentos pelo rádio. O remédio foi jogado por um avião da FAB. Era penicilina e a índia, que já estava sendo pintada para a cerimônia fúnebre, recuperou-se. A notícia correu e graças a esse acontecimento pudemos erguer nosso primeiro posto às margens do rio Curuene e estabelecer relações cordiais com todos os índios da língua caraíba.