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Curiosidades da infância

Nasci em 12 de janeiro de 1914, em Santa Cruz do
Rio Pardo, uma cidade do oeste paulista onde meu pai foi prefeito. Meus
pais tiveram onze filhos. Sou exatamente o do meio, o do meio do pelotão.
Em 1920, o velho foi advogar na capital do estado e trouxe toda a família.
Fomos morar nas Perdizes, na rua Monte Alegre, bem em frente onde hoje
é a PUC, na época um terreno íngreme e descampado
que permitia enxergar, lá longe, a primeira fábrica construída
naquela área pelo Matarazzo.
Por volta dos oito anos, fui estudar no Grupo Escolar do Largo das Perdizes,
mas a vida de meu pai era muito atribulada e ele matriculou os filhos
Leonardo, Cláudio, Nélson e eu no Ateneu Paulista de Campinas.
Era um colégio interno que exigia um representante na cidade
responsável pelo aluno. Por questão de amizade com meu
velho, a escolhida foi a baronesa de Campinas, uma senhora que nos mandava
buscar todos os domingos e nos ensinava boas maneiras.
Campinas era a terra das andorinhas. No final da tarde, o céu
ficava escuro porque as aves toldavam todo o oriente. Era uma visão
de fantástica beleza! Depois de uns tempos, as andorinhas desapareceram.
Acho que as comeram todas.
Embora tenhamos voltado a morar em São Paulo, tínhamos
uma formação interiorana. Meu pai tinha sido também
prefeito de Campos Novos de Paranapanema, cidade do Estado de São
Paulo famosa pela produção de laranjas, fruta de exploração
trabalhosa. É preciso colher uma por uma, com cuidado, sem machucar.
Conseqüentemente, os fazendeiros dependiam de muita mão-de-obra.
Por isso, dois proprietários espanhóis decidiram arrebanhar
índios para trabalhar nos laranjais e viajaram a Mato Grosso
de onde trouxeram 53 índios terenas a pé até Campos
Novos. Meu pai ficou indignado. Mandou prender os espanhóis e
colocou os índios no tribunal do conselho, um terreno nos fundos
da prefeitura onde eram recolhidos os animais que perambulavam soltos
pelas ruas. O velho fez construir um galpão para abrigar os índios
até ter tempo de organizar uma expedição que os
levasse de volta à terra natal. Veja que o assunto índio
começou bem cedo na vida da gente. Antes mesmo de eu ter nascido.
O tempo foi passando. Meu pai tinha uma casa comissária em Santos,
advogava em São Paulo e a família gozava de situação
financeira folgada. Tínhamos sido transferidos para o Colégio
Paulista do professor Rocha Campos na capital, mas veio a crise do café
e a vida mudou.
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