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Vacina contra hepatite B Drauzio – A hepatite B, doença sexualmente transmissível, é o mais sério problema de saúde pública em países como a China, por exemplo. Sem tratamento, a doença provoca aumento na incidência de cirrose e tumores de fígado. Vacinar a população é uma medida importantíssima de saúde pública. Felizmente, o Butantã produz também essa vacina. I.Raw – A vacina contra a hepatite B produzida no Butantã foi totalmente refeita e é semelhante às vacinas produzidas pelos países do Primeiro Mundo. Felizmente, não há uma campanha contra o uso de transgênicos na fabricação de vacinas porque nos valemos de recombinação genética. Um gene que codifica uma proteína existente na superfície da vacina da hepatite B, colocado dentro de um fermento da cerveja, passa a fazer uma cápsula idêntica à do vírus que provoca a doença. Por isso, é relativamente fácil purificá-lo, uma vez que não tem ácido nucléico e, portanto, não se reproduz. A tecnologia não é simples não só no que se refere à engenharia genética, mas porque a produção exige o emprego de centrífugas que atingem 200 mil vezes a força da gravidade e que foram desenvolvidas para a indústria de urânio. No hemisfério sul, somente a Austrália e o Butantã produzem essa vacina. A hepatite B é uma doença muito importante por vários motivos. Primeiro, porque se o paciente não morre de hepatite, vai morrer provavelmente de câncer de fígado causando uma despesa familiar e pública muito grande. Quando o Instituto Butantã começou a produzir essa vacina, ela custava US$8,00 por dose. Em 2.000, nós a entregamos ao Ministério por R$1,00. O paradoxo nos valores é explicado pelo fato de que não competimos com o preço normal das companhias nem do grande atacado. Competimos com um fundo que existe na OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde) previsto para os países pobres e que nos obriga a vender, no máximo, ao preço subsidiado para os países do Terceiro Mundo, meta que conseguimos ultrapassar, pois nosso preço é menor do que o exigido por esse programa. Drauzio – O senhor acredita que seja possível controlar a incidência da hepatite B? I.Raw - Teoricamente, a hepatite B deve seguir o caminho da varíola. Se conseguirmos erradicar a doença e a África também o fizer, acabou-se a hepatite. Para tanto, temos que vacinar a população inteira e, no momento, não há no mundo quem fabrique a quantidade necessária de doses. Por isso, o Brasil começou pelas crianças e passou para os jovens de 15 anos, idade em que ingressam na vida sexual. No entanto, estudo realizado por um médico num asilo revelou que 25% dos internos tinham o vírus da hepatite. Ele examinou, a seguir, os funcionários e obteve o mesmo resultado. Ora, consta nos livros que só se pega hepatite por sangue ou por relação sexual, mas um trabalho feito por Luís Alberto Pereira da Silva, em Rondônia, demonstrou que crianças que não apresentavam a doença no primeiro ano de vida, aos cinco anos estavam infectadas. Existe, então, um outro mecanismo de transmissão da hepatite, que desconhecemos qual seja e que funciona quando a densidade populacional é muito alta. Imagine uma criança que vá para a Febem. A possibilidade de ser contaminada pelo vírus da hepatite é imensa. O mesmo acontece com uma pessoa que vá para a cadeia ou seja presa numa delegacia. Criou-se para ela uma pena muito mais severa do que qualquer outra que o poder judiciário possa impor-lhe. Drauzio – Dr. Ésper Kallas fez um trabalho na Casa de Detenção que resultou em sua tese de mestrado e encontrou 13,7% dos presos contaminados pelo vírus da AIDS, quase 40% infectados pelo vírus da hepatite C e 60%, pelo da hepatite B. I.Raw – E não há o que fazer com essas pessoas. A única saída é a prevenção que pressupõe vacinar crianças e jovens que vão parar nesses lugares. Com os adultos, talvez já se tenha perdido a época oportuna para implementar essa medida. Drauzio – Como é feita normalmente a vacinação contra hepatite? I.Raw – A vacina contra hepatite é aplicada em três doses: um mês depois de aplicada a primeira dose a pessoa toma a segunda dose e a terceira, no sexto mês. Nos adultos, essa última dose pode ser dada no quarto mês. Só depois de ter tomado as três doses, a pessoa estará completamente imunizada. Cerca de 10% delas, porém, não respondem à vacinação contra a hepatite B qualquer que seja o fabricante do produto. O pior é que esses 10% que não adquirem imunidade podem disseminar a doença e provocar uma epidemia. Temos competência para fazer a vacina bem feita numa fábrica que nada fica a dever às do Primeiro Mundo. Conseguimos desenvolver não só as vacinas como somos capazes de montar fábricas para produzi-las. O Butantã atendeu a um pedido do Itamarati para montar de graça a fábrica de DPT (difteria, tétano e coqueluche) da Venezuela. No entanto, continua enorme a dificuldade em encontrar quem se interesse por testar novas vacinas. É um problema estressante que estamos enfrentando. Não adianta inventar um produto se não pudermos testá-lo convenientemente em pessoas porque em animais já provamos que dão certo. |
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