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Produção do sulfactante pulmonar Drauzio – O Butantã recebe grande parte das verbas de pesquisa através da FAPESP? I.Raw – A pesquisa tecnológica, entre todas, é a mais cara. Para fazer, por exemplo, uma nova vacina de meningite B, é preciso montar um laboratório capaz de produzi-la de forma que possa ser injetada em gente, o que é praticamente construir uma fábrica de novo. Por isso, talvez, nestes últimos 50 anos, a coisa que me tenha dado mais prazer pela velocidade e acidentalmente pelo modo que caminhou foi um projeto financiado pela FAPESP e patrocinado pela Sadia. A meta era produzir sulfactante pulmonar, um detergente que se forma normalmente no final da gravidez. Quando a criança dá o primeiro choro, se não houver sulfactante, o pulmão não expande, os alvéolos ficam colabados e a criança terá um problema grave, mais ou menos intenso dependendo da maturidade pulmonar do recém-nascido. No Brasil, nascem por volta de 150.000 crianças por ano nessa situação, porque são prematuras por peso ou por nascimento antecipado. Se as crianças não forem salvas, os prejuízos psicológicos e econômicos para a família e para o país serão consideráveis. Drauzio – Quanto custa esse tratamento? I.Raw – Cada criança demanda um ou dois tratamentos. O sulfactante custa R$500,00 por ampola, valor que multiplicado por 150.000 consome boa parte da verba do Ministério da Saúde. Como esse produto é feito de pulmão de boi ou de porco, entramos em contato com a Sadia que nos forneceu os pulmões e colaborou com um pouco de dinheiro. No entanto, o projeto não podia ser desenvolvido apenas na mesa. Esse é um dos grandes problemas da universidade brasileira. Ela resolve o problema e espera que a indústria ponha em prática suas conclusões. Quando um industrial vai comprar uma tecnologia, porém, quer saber quais são os custos envolvidos: quanto de energia elétrica se gasta, quanto de água, onde se compra a matéria-prima e qual seu preço. Por isso, foi preciso montar um piloto que, para minha surpresa, não só funcionou depois de pequenas modificações, como vai ser possível produzir o sulfactante para as 150.000 crianças que nascem por ano num laboratório que ocupa um espaço físico muito pequeno. Drauzio – Quanto vai custar cada ampola? I.Raw – Vamos vender a R$50,00 cada ampola. Eu era um professor universitário de Bioquímica. Não estava interessado em indústria nem em resolver problemas reais da sociedade. Produzir esse sulfactante provou que isso é possível e precisa ser feito. Drauzio – Essas diferenças chocantes nos preços levam a pensar que há alguma coisa errada nesse universo, o senhor não acha? I.Raw - Nesse caso específico, posso dizer que a tecnologia que desenvolvemos é melhor do que a estabelecida no mercado. Nós criamos um método extremamente simples e eficiente para obter esse produto. No caso dos preços dos medicamentos em geral, o problema não se resume aos impostos que não são baixos. Os custos incluem viagens de médicos a congressos, amostras grátis, publicidade, o salário dos propagandistas que visitam os consultórios, etc. |
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