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Importância da pesquisa para o desenvolvimento de projetos Drauzio – Isso prova que instituições como o Butantã, que vieram se degradando com o decorrer dos anos, são recuperáveis. Essa recuperação consome muito dinheiro? I.Raw – Eu diria que na realidade não consome. O Estado de São Paulo difere do resto do Brasil porque tem várias instituições desse tipo. O problema é que elas são muito diferentes das universidades. Primeiro, porque não têm alunos e é o aluno que estimula, faz perguntas, quer dedicar-se à pesquisa, cria desafios. Depois, porque as equipes se autoperpetuaram nos cargos. Quando havia uma vaga, era feito um concurso que resultava na aprovação de recém-formados egressos da universidade. Eles nada sabiam e viravam pesquisadores de uma hora para outra, sem escola nem orientação. Além disso, a relação desses institutos com a universidade era adversa. Um enorme portão separava a USP do Instituto Butantã. Quando eu estava na USP, olhava com maus olhos o Instituto e vice-versa: o pessoal do Instituto olhava enviezado para a turma da universidade. Enquanto se mantém esse cisto fechado, sem aluno, sem pós-graduação, a pesquisa morre. Aí, não há dinheiro que resolva. Tenho um filho que foi para o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos mantido pelo governo federal americano. Quando entrei lá, vi o antigo Butantã. Meu filho não agüentou viver naquele oásis de nada, tão diferente da efervescência própria das universidades americanas. Nós abrimos o portão e recolonizamos o Butantã. Esse híbrido de instituto de pesquisas e de ensino é fundamental para o desenvolvimento da produção científica e tecnológica. Drauzio – Consumiu muito dinheiro esse incentivo à pesquisa? I.Raw – Não. Foram empregadas dez pessoas que pediram auxílio à FAPESP para desenvolver seu trabalho. A instituição não deve ter verba de pesquisa. Se alguém quer fazer pesquisa, submete um projeto à apreciação da FAPESP e, se ele for aprovado, o candidato recebe dinheiro. No Estado de São Paulo, a chance de conseguir ajuda é pelo menos dez vezes maior do que nos Estados Unidos, porque a concorrência é muito pequena aqui. Nos Estados Unidos, há ainda outro agravante. Lá não existe o pesquisador funcionário público. Não tem ninguém estável. Quando uma pessoa vai fazer pesquisa numa universidade, a verba recebida deve garantir o seu salário e um overhead que inclui até os honorários do diretor da escola. Na realidade, é o auxílio de pesquisa que mantém a instituição e não o contrário. No Brasil, a pessoa tem salário, auxiliares, direito ao uso do espaço, da luz, da água, etc. Portanto, de 70% a 80% dos custos já estão pagos e, se a FAPESP aceitar o projeto, não vai dar mais do que 20% ou 30% do total. O resto já saiu do mesmo bolso: o Estado. A vantagem é que isso obriga o candidato a dar uma satisfação antecipada para a comunidade científica. Depois, quando o trabalho é publicado, mais uma vez será apreciado pela comunidade científica mundial. Num passado não muito distante, os institutos de pesquisa tinham suas próprias revistas. Na Faculdade de Medicina, cada professor tinha um número de páginas reservadas para a publicação de seus trabalhos. Isso acabou. Agora é preciso concorrer a um espaço e passar pelo crivo de uma revista nacional ou estrangeira e, se o trabalho não for publicado, a verba pode ser revista. Drauzio – O senhor conhece, no Estado de São Paulo, um pesquisador que tenha a proposta de um trabalho importante e que não consiga recursos para realizá-lo? I.Raw – Às vezes, o trabalho cai nas mãos de um referee que, por motivos pessoais, retarda o processo, mas no final todos que têm uma proposta aceitável acabam atendidos. A FAPESP financia a pesquisa e, como os institutos e laboratórios dentro das universidades públicas estão em situação precária, o pesquisador usa o dinheiro de acordo com suas necessidades: compra um micro ou reforma a mesa de trabalho, por exemplo. Essa é uma situação extraordinária que torna o Estado de São Paulo, comparado com outros lugares do Brasil e da América Latina, quase uma exceção. A tendência é esse funil ir estreitando com o tempo. No momento, porém, há muita gente boa que submete bons projetos. É obvio que uma porcentagem deles é de terceira categoria, mas isso faz parte do processo de crescimento. |
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