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Isaias Raw, um dos mais eminentes cientistas
da área das ciências biológicas do Brasil, foi
professor de Bioquímica na Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo, trabalhou no exterior no período em
que esteve exilado depois da revolução de 1964 e hoje
dirige o Instituto Butantã, um dos orgulhos da ciência
nacional. |
Produção de acordo com os padrões
internacionais

Drauzio – Como se desenvolveu
o processo de produção de vacinas no Butantã?
I.Raw - No princípio, o processo de produção
de vacinas foi empírico. Foi experimentando, errando e acertando
que conseguimos uma produção totalmente automatizada,
obedecendo a padrões que, às vezes, não são
encontrados nas grandes companhias porque nossos laboratórios
foram construídos há muito menos tempo.
Quando o governo resolveu que precisava fazer um esforço imunobiológico,
nossa primeira atitude não foi reformar as fábricas. Ao
assumir o Butantã, minha proposta era montar um centro para o
desenvolvimento de novos processos de produção de vacinas
e de soros.
Biotecnologia é uma palavra nem sempre bem empregada. Para mim,
significa aprender a fazer uma coisa consistentemente e em grande volume.
O Brasil demanda grande volume. Três milhões de crianças
nascem por ano e, se cada uma tomar uma vacina que precisa ser aplicada
em três doses, serão necessários perto de dez milhões
de doses. Talvez, com exceção do México, nenhum
país da América Latina tenha um programa que atenda essa
demanda populacional. Por essa razão, sempre nos empenhamos em
desenvolver uma tecnologia que nos permitiu remontar as fábricas
e estamos trabalhando para criar vacinas que substituam com vantagem
as que já existem.
A vacina da raiva, por exemplo, pode ser obtida injetando o vírus
da doença no cérebro do camundongo de um dia. Depois,
retira-se o cérebro do animal e faz-se uma polpa. Se tiver mielina
nessa polpa, eventualmente, a pessoa que foi mordida por um cão
raivoso poderá morrer por causa da vacina.
Drauzio – O risco é pequeno, mas existe,
não é?
I.Raw – Existe. Atualmente, porém, a vacina
anti-rábica começa a ser produzida em cultura celular
no Butantã. Não tem camundongo, não tem mielina.
É uma vacina de nova geração e tem chance de sobreviver
a longo prazo. No entanto, se não houver pesquisa, é impossível
que alguma coisa tenha a chance de sobreviver. Felizmente, nós
podemos contar com a colaboração praticamente de um único
e importante parceiro, a Fundação Oswaldo Cruz, que complementa
nosso trabalho fazendo a pesquisa básica, enquanto nós
oferecemos o meio de campo criando tecnologia de verdade. São
processos extremamente caros se comparados com uma pesquisa normal,
mas, em compensação, progridem numa velocidade astronômica.
Até algumas gerações atrás, eram necessárias
três ou quatro administrações de vacinas contra
a varíola para “ver se uma pegava”. Por que não
pegava? Porque a vacina era posta dentro de um capilarzinho que era
fechado no fogo e obviamente tal conduta comprometia a qualidade da
vacina. Nem isso se sabia. Hoje, a varíola está erradicada
do Brasil. Algo semelhante aconteceu com o soro. Enquanto o leite talha,
se for contaminado na indústria, o soro obtido a partir do plasma
do cavalo, se contaminado, não talha. Por isso, a importância
em desenvolver novos processos de fabricação para garantir
a qualidade de produção do Butantã.
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