Darwin e Lamarck
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Drauzio - Qual sua visão a respeito
de Lamarck e sua influência no trabalho de Darwin?
Vanzolini - Lamarck foi um naturalista injustiçado. Suas
experiências cortando o rabo dos ratos e constatando que os filhotes continuavam
nascendo com rabo, comprometeram sua reputação. Lamarck defendia que o desuso
de um órgão acabava levando-o à atrofia, mas que, se fosse estimulado, desenvolveria
características que seriam transmitidas às gerações futuras. Para sermos
mais claros, vamos analisar o que acontece com os órgãos vestigiais. Os
peixes que nascem em cavernas escuras praticamente não enxergam. Essa perda
dos órgãos rudimentares pedia uma explicação que, com o tempo, a genética
se encarregou de oferecer. Sabe-se, hoje, que para manter algo complicado
como o olho em funcionamento são necessários inúmeros genes. Se algum deles
fracassa, a probabilidade de o bicho morrer é grande e, nesse caso, o gene
defeituoso será descartado. Isso é a seleção natural. Agora, o bicho sobrevivendo,
porque ter ou não ter olho não faz a menor diferença, os defeitos se acumulam
de uma geração para a outra e provocam mutações deletérias permanentes.
Na época, Lamarck chegou à única conclusão que a ausência de conhecimento
genético permitia: o desuso explicava esse tipo de fenômeno. Darwin era
lamarckiano e, mesmo depois de "A origem das espécies", repetia os ensinamentos
de Lamarck.
Drauzio - Se, ao nascer, uma criança tiver um dos olhos
ocluídos, 30 dias depois estará cega definitivamente porque os genes responsáveis
pela visão não foram ativados. Essa característica pode ser transmitida
a seus descendentes?
Vanzolini - Não, porque essa criança sofreu uma perturbação
externa durante o período de desenvolvimento e, desde que a oclusão não
se repita em seus descendentes, estes enxergarão normalmente, pois os genes
que pais e filhos carregam não são defeituosos como os dos peixes das cavernas.