A paixão pelo evolucionismo


DRAUZIO - Quando surgiu seu interesse
pela evolução e que impacto ela teve em sua carreira profissional, especificamente
na área da zoologia?
VANZOLINI - Desde quando me interessei por zoologia, interessei-me
por evolução. Você pode entender a evolução por diversos aspectos. Eu quis
estudar a origem das espécies tropicais. Era um assunto com o qual pouca
gente lidava. Eu tinha a vantagem de ter uma formação estatística razoável
e fiz trabalhos que se destacaram. Além disso, contei com uma ajuda preciosa.
Em São Paulo, existe uma escola de Geomorfologia como não há outra no mundo.
Nós temos um geomorfólogo chamado Aziz Nacib Ab'Saber, que é um gênio. Ele
abriu minha cabeça, me ensinou muito. Meu trabalho mais conhecido, o modelo
de refúgios, fundamentou-se nas descobertas de Aziz sobre os paleoclimas,
porque o clima do mundo, e principalmente do Brasil e da América do Sul,
variou rápida e extremamente. Para ter-se uma idéia, onde hoje é a Amazônia,
há algum tempo existia caatinga e cerrado. Do ponto de vista do que faço,
essa teoria foi de uma importância ímpar, em especial para o desenvolvimento
da teoria dos refúgios.
DRAUZIO - Esses conceitos são fundamentais porque as
espécies se diversificam quando ficam isoladas e param de trocar os genes,
que começam a seguir por um rio sem afluentes. Essa visão é uma coisa muito
recente, não é? Jamais se imaginou que para conhecer Zoologia ou Biologia
fosse necessário conhecer Geomorfologia.
VANZOLINI - Quando voltei dos Estados Unidos com essas
idéias, era chamado de pretensioso, de fosfórico, de besta e de mentiroso
pelos zoólogos brasileiros. Porque a zoologia, naquele tempo, servia para
identificar bicho, botar nome no bicho. Por isso, tinha tanto amador no
ramo. A zoologia brasileira era uma coleção de selos.