Formou-se médico para ser zoólogo


DRAUZIO - Por que você foi estudar
medicina se o seu interesse era biologia?
VANZOLINI - Meu pai era professor da Escola Politécnica
da USP e tinha muitos amigos universitários. Um deles, o professor André
Dreyfuss, criador da genética no Brasil e primeiro professor de Biologia
Geral da USP, me disse: "Olhe, se você quiser fazer zoologia de vertebrados,
vá para a Faculdade de Medicina onde vai estudar anatomia, histologia, embriologia
e fisiologia num curso básico de primeiro nível. O resto você rola com a
barriga". Foi o que eu fiz e foi um conselho tão bom que quando cheguei
para fazer pós-graduação nos Estados Unidos fui dispensado de vários créditos.
O professor que me entrevistou para recomendar os cursos de adaptação que
eu deveria freqüentar, olhou meu histórico escolar e diante do que leu me
perguntou: -"Você fez esses cursos todos?". Respondi-lhe que sim, que havia
cursado a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. -"Onde fica
isso?". Sem ouvir a resposta, foi até a estante, pegou um livro e falou:
"Rapaz, isso é classe A". E eu tive uma redução de metade dos créditos de
Harvard por ter freqüentado o curso básico na Faculdade de Medicina de São
Paulo.
DRAUZIO - Vamos falar primeiro dessa passagem pela
Faculdade de Medicina. Fico curioso em saber qual era sua relação com os
doentes quando começou o período de clínica mesmo?
VANZOLINI - Nenhuma, eu não aparecia nas aulas nem no hospital.
DRAUZIO - E como conseguia ser aprovado?
VANZOLINI - Sempre tinha um jeito. Na verdade, onde tem
vontade, tem jeito. Quando chegava perto dos exames, eu dormia no Hospital
das Clínicas e a turma me dava um cursinho intensivo.
DRAUZIO - Nessa época, você levava uma vida boêmia?
VANZOLINI - Não, eu vivia dentro do laboratório de zoologia
mesmo. Fui nomeado para o Museu de Zoologia quando estava no quinto ano
de medicina.