Cientista de unhas sujas
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Drauzio - A meu ver, isso é uma
coisa interessante na carreira do cientista. Por que, primeiro, ele precisa
ser ousado para pensar a realidade de forma original. Segundo, porque depois
precisa mergulhar num trabalho metodológico e metódico, não é?
Vanzolini - É, meu amigo... Mas eu tenho que passar por
uma rotina impiedosa e dura sem a qual não se pode chegar a lugar nenhum.
Como fazer as coisas sem serviço, não conheço a receita. Uma vez, recebi
um elogio (considero um elogio, embora a intenção não fosse essa) de um
grande amigo, professor em Harvard. Ele dava lá o curso que eu dava aqui,
na Faculdade de Filosofia, e pediu a minha distribuição de aulas. Mandei-lhe,
ele a mostrou aos alunos e comentou: "Isso é zoologia de unha suja!". Sem
querer, foi o melhor elogio que me poderia ter feito. Eu me orgulho das
minhas unhas sujas de zoólogo! Drauzio - Que conselho você daria aos novos
cientistas, essa garotada que está começando agora?
Vanzolini - O primeiro conselho é que não sigam os conselhos de ninguém e que se apliquem e façam bem feito e com amor o seu serviço.
Drauzio - Seguiria esse conselho se você tivesse que
começar de novo? E a área escolhida seria a mesma?
Vanzolini - Seria difícil evitar o conselho. Quanto à área,
meu amigo, tenho mais de 70 anos, estou aposentado e, com exceção do domingo,
que vejo futebol pela TV, vou todos os dias ao Museu de Zoologia das 8:30h
às 19h. Não vou atrás de dinheiro nem de fama. Vou por amor ao que faço.
Drauzio - Como se explica que algumas pessoas pareçam
predestinadas a abraçar determinadas profissões?
Vanzolini - Para mim, elas o fazem por senso estético,
porque acham bonito e por vaidade. Se alguém disser que faz ciência para
promover o conhecimento ou o bem da humanidade, bota esse sujeito de quarentena.
Ele faz porque gosta, porque assim se realiza.