Introdução
Cientista avesso às aulas
Formou-se médico para ser zoólogo
Harvard: choque cultural
A paixão pelo evolucionismo
Zoólogo, um coletor itinerante
Diversidade animal e teoria dos refúgios
Darwin: a história de um biólogo
Darwin e Lamarck
Impacto da teoria darwiniana
Darwin e Wallace
Como surge uma teoria
Teoria da evolução
Desenvolvimento científico e Genética
Cientista de unhas sujas
Vida de compositor







Cientista de unhas sujas


Drauzio - A meu ver, isso é uma coisa interessante na carreira do cientista. Por que, primeiro, ele precisa ser ousado para pensar a realidade de forma original. Segundo, porque depois precisa mergulhar num trabalho metodológico e metódico, não é?
Vanzolini - É, meu amigo... Mas eu tenho que passar por uma rotina impiedosa e dura sem a qual não se pode chegar a lugar nenhum. Como fazer as coisas sem serviço, não conheço a receita. Uma vez, recebi um elogio (considero um elogio, embora a intenção não fosse essa) de um grande amigo, professor em Harvard. Ele dava lá o curso que eu dava aqui, na Faculdade de Filosofia, e pediu a minha distribuição de aulas. Mandei-lhe, ele a mostrou aos alunos e comentou: "Isso é zoologia de unha suja!". Sem querer, foi o melhor elogio que me poderia ter feito. Eu me orgulho das minhas unhas sujas de zoólogo! Drauzio - Que conselho você daria aos novos cientistas, essa garotada que está começando agora?
Vanzolini - O primeiro conselho é que não sigam os conselhos de ninguém e que se apliquem e façam bem feito e com amor o seu serviço.

Drauzio - Seguiria esse conselho se você tivesse que começar de novo? E a área escolhida seria a mesma?
Vanzolini - Seria difícil evitar o conselho. Quanto à área, meu amigo, tenho mais de 70 anos, estou aposentado e, com exceção do domingo, que vejo futebol pela TV, vou todos os dias ao Museu de Zoologia das 8:30h às 19h. Não vou atrás de dinheiro nem de fama. Vou por amor ao que faço.

Drauzio - Como se explica que algumas pessoas pareçam predestinadas a abraçar determinadas profissões?
Vanzolini - Para mim, elas o fazem por senso estético, porque acham bonito e por vaidade. Se alguém disser que faz ciência para promover o conhecimento ou o bem da humanidade, bota esse sujeito de quarentena. Ele faz porque gosta, porque assim se realiza.