
Drauzio - Na metade do século passado,
os museus britânicos já estavam cheios de fósseis. Todos viam que os fósseis
do passado eram parecidos com animais existentes no presente. Parecidos,
mas não iguais. Estabelecia-se, com isso, uma relação, mas ninguém sabia
explicar como aqueles animais tinham desaparecido e por que eram parecidos
com os que sobreviveram. Alguns acreditavam que Deus, periodicamente, extinguia
a todos. Charles Darwin, porém, teve uma idéia inovadora: esses animais
competiram entre si e, por um processo de seleção natural, os mais aptos
sobreviveram. Partiu, então, em busca de elementos para comprovar sua hipótese
e acabou fazendo uma grande demonstração científica. Algo semelhante ao
que fez Newton, por exemplo, vendo cair uma maçã na terra. Desde que o mundo
existe, as maçãs caem das árvores, mas ele encarou aquela realidade de outra
forma: "Não é a maçã que cai sobre a Terra, é a Terra que atrai a maçã através
de uma força, a força da gravidade." Agindo, assim, esses homens conseguiram
descobrir leis universais. O que é isso, essa criatividade de pensar uma
teoria e, depois, ter a disciplina de demonstrá-la na prática?
Vanzolini - Pensar a teoria é um ato social. Ninguém criado
no isolamento consegue construir uma teoria. O ambiente científico vai evoluindo
aos poucos e instigando as idéias a amadurecer. Darwin retratou as indagações
e preocupações de seu tempo. Ele foi o gênio a quem coube documentá-la,
formulá-la. Porque uma coisa é enxergar e outra é formular. Principalmente,
como diz Karl Popper, formular de uma maneira que possa ser falsificada,
que possa ser contradita, que possa ser examinada criticamente. Quem leu
não "A Origem das Espécies", mas outros livros do Darwin, como "Evolução
em animais e plantas de domesticação", verifica a fantástica quantidade
de dados interpretados corretamente e obedecendo a uma disciplina mental
fabulosa. O homem era um gênio, mas o fenômeno é social e, como as idéias
amadurecem dentro do ambiente científico, é importante estar num grande
centro.
Drauzio - Além de estar num grande centro, é preciso
desenvolver um método de trabalho porque, se Darwin tivesse permanecido
no campo das idéias, nada teria acrescentado ao conhecimento científico.
Para mim, o mais interessante de sua obra é o que vale para explicar o aparecimento
do homem na Terra, com um ancestral comum ao dos primatas e como apareceram
as árvores, os carvalhos, as sequóias. O mais curioso é que, quando se estudam
os mecanismos celulares, quanto mais se aprofunda na dissecação desses mecanismos,
mais se verifica que o mesmo princípio pode ser aplicado.
Vanzolini - É um fenômeno estatístico. Você precisa de
muitas combinações possíveis para poder selecionar uma que dê realmente
certo.
Drauzio - Isso tem repercussões não são só morfológicas,
mas explica grande parte do nosso comportamento, não é mesmo?
Vanzolini - Há genes que aparecem tanto nas drosófilas
como nós homens. Genes conservados durante todo processo evolutivo. Por
exemplo, tem bilhões de anos o gene comum aos homens e às drosófilas que
indica o lado do organismo em que se desenvolverá a cabeça ou o rabo.
Drauzio - Esse caminho é absolutamente imprevisível,
não é?
Vanzolini - Não totalmente. No geral, pode-se saber quais
necessidades serão atendidas, pois onde surge uma necessidade expressiva,
eventualmente, ela será atendida. Por exemplo, vamos considerar aves vivendo
em ambientes com grande diversidade de comida: insetos, frutas, sementes,
etc. Não existem aves que comam de tudo, por isso elas constituirão grupos
que se especializarão em consumir determinado tipo de alimento. Haverá aves
insetívoras, granívoras,frugíveras e até carnívoras. Isso se chama radiação,
ou seja, cada grupo se diferencia seguindo direções ecológicas distintas.
De acordo com esse ponto de vista, é possível prever que nichos serão ocupados,
pois onde houver um nicho vazio, sempre haverá alguém para ocupá-lo. Mais
do que isso seria uma temeridade afirmar.