Cientista avesso às aulas
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DRAUZIO - Professor, quando você percebeu
essa vocação naturalista?
VANZOLINI - Sempre
gostei de bicho, mas não gostava das aulas. No ginásio, eu era muito rebelde.
Aliás, para ser mais sincero, nos quatro anos de primário, cinco de ginásio,
dois de pré-médico, seis de medicina e três de Harvard, nunca assisti às
aulas com gosto. Meu pai ficava apavorado e me subornava. Então, me prometeu
uma bicicleta de presente caso eu entrasse no ginásio numa boa colocação.
Ganhei a bicicleta e o primeiro passeio que fiz foi ao Instituto Butantã.
Eu tinha dez anos de idade e me apaixonei. Nessa visita ao Butantã, entendi
o que queria na vida. Com catorze anos, quando estava terminando o ginásio,
arranjei um estágio no Instituto Biológico. Naquele tempo, havia maior facilidade
para os jovens estagiarem em laboratórios. Eles recebiam a gente com boa
vontade, sem obrigação nenhuma de ambas as partes. Lá comecei a me profissionalizar
como zoólogo aos catorze anos de idade.
DRAUZIO - O que você fazia no laboratório do Instituto
Biológico? VANZOLINI - Eu era uma espécie de
segundo auxiliar de cachorro. Fazia o que me mandassem, mas o que mais me
atraía eram os trabalhos sobre a evolução.
DRAUZIO - Como foi esse seu estágio no Instituto Biológico?
Durou quanto tempo?
VANZOLINI - Como aprendizagem de zoologia foi muito ruim.
A zoologia que se fazia lá era derivada da de Manguinhos, do Instituto Oswaldo
Cruz, a pior zoologia do mundo. Quando fui para Harvard, nos Estados Unidos,
me achando o fino, tive um choque cultural tão violento ao descobrir o que
era a zoologia moderna, que quase desisti do projeto.
DRAUZIO - Passou vergonha lá?
VANZOLINI - Não, vergonha não passei, porque nunca fui
muito exibido, mas experimentei sofrimentos morais intensos por me achar
tão bom e, na verdade, estar tão mal preparado.