|
|
|
|
||||||||
|
|
|
Doenças nas artérias do coração - Cardiologia II Drauzio – Como se desenvolvem as doenças coronarianas? Jatene – A lesão nas artérias coronárias, a aterosclerose coronariana, transformou-se na epidemia do século XX. Se a obstrução chegar ao ponto de fechar a artéria, a área do músculo cardíaco que dela depende fica sem circulação, pode necrosar e morre. É o infarto do miocárdio. A aterosclerose pode vir acompanhada de alguns sintomas. Durante a atividade física, o indivíduo pode sentir desconforto, compressão precordial, dor que se irradia para o queixo, ombro e braço. Cessando o esforço, a dor também cessa. É a angina do peito que constitui um dado importante para diagnóstico da doença do coração. Muita gente acha que dor no peito é sempre sinal de problemas cardíacos. Para estabelecer a diferença, costumo perguntar se a dor dura minutos, segundos ou horas. Se dura segundos, certamente não é dor cardíaca. É nevralgia intercostal. Se dura horas, é problema da coluna ou da parede. A dor cardíaca dura minutos, tem relação com esforço e emoção e cessa quando eles terminam. Essa sintomatologia exige avaliação urgente e por meio da coronariografia é possível identificar o tipo de lesão nas artérias e como ela se comporta. A diferença fundamental entre a doença congênita valvar, as arritmias e a doença das coronárias é que esta, muitas vezes, não causa sintomas e o indivíduo é surpreendido por infarto ou morte súbita. Não é raro o indivíduo fazer teste de esforço com resultado normal e, alguns dias depois, manifestar um episódio agudo. Por isso, é sempre importante valorizar os sintomas quando existirem e estar atento aos fatores de risco. Drauzio – Quais são os principais fatores de risco? Jatene – Em primeiro lugar, vem a herança genética, que não pode ser mudada. Se pai, mãe, irmãos, tios ou outros parentes tiveram doença coronária explícita, sofreram infartos ou foram operados do coração, a pessoa precisa ser avaliada com todo o cuidado. Sempre chamo a atenção dos filhos dos doentes que opero. Digo-lhes que têm risco genético para a doença, o que não significa que obrigatoriamente irão desenvolvê-la. Outro fator de risco é a hipertensão porque compromete as artérias e pode gerar obstruções que interferem no funcionamento cardíaco. Em terceiro lugar, vem o fumo, um fator também envolvido numa série de doenças como câncer de pulmão, de bexiga, de laringe, assim como em doenças das artérias coronárias e cerebrais. Em quarto lugar vem a hipercolesterolemia, isto é, níveis elevados de gordura no sangue geralmente associados à ingestão inadequada de alimentos. Drauzio – Por isso quem tem hipertensão não pode suspender o uso dos remédios? Jatene – Hipertensos têm de tomar remédio sempre. O grande problema é que a hipertensão não dá sintomas, mas o tratamento traz consigo efeitos colaterais, alguns sobre a libido. Daí, o individuo pensa - eu não sentia nada e agora, com o tratamento, estou sentindo – e abandona os medicamentos, expondo-se a um risco enorme, porque a hipertensão está associada aos acidentes vasculares cerebrais e à dissecção da aorta, doenças graves que podem ocorrer se a pressão for mantida elevada por muito tempo. Drauzio – O que é dissecção da aorta? Jatene –A aorta, artéria principal do coração, é constituída por uma camada externa, uma média e uma íntima que reveste a parte mais interna. Os hipertensos podem sofrer descolamento entre a camada média e a íntima. Como a parede da artéria perde a resistência, forma-se um aneurisma dissecante. Em outras palavras: a dissecção da aorta é a ruptura da camada íntima que faz o sangue entrar num caminho delaminado entre as paredes da artéria, o que gera uma dilatação com conseqüências muito sérias. Drauzio – Qual o peso da dieta no risco dos problemas cardíacos? Jatene – Nós ingerimos hidrato de carbono, gorduras e proteínas. A proteína é usada na reconstrução das células orgânicas. Por exemplo, os glóbulos vermelhos do sangue não duram mais do que quatro semanas, a pele perde células continuamente e precisa ser reconstruída. Por isso, pessoas privadas de alimentação protéica geralmente sofrem um processo degenerativo do organismo. Prova disso é o que aconteceu com as pessoas nos campos de concentração. O hidrato de carbono não utilizado como energético transforma-se em gordura que se acumula em vários locais do corpo, inclusive no interior das artérias. Por isso, a dieta precisa ser equilibrada. As pessoas podem comer de tudo desde que em quantidade moderada. À medida que os anos passam, porém, geralmente comem mais, embora necessitem de menos alimentos, e engordam. A dislipidemia (taxa anormal de gordura no sangue) na maior parte das vezes está associada ao excesso de ingestão e não a distúrbios metabólicos. Drauzio – Qual a importância da atividade física na prevenção dos problemas cardíacos? Jatene – O exercício físico é absolutamente fundamental, mas é comum, depois de certa idade, as pessoas levarem vida sedentária. O sujeito pára o carro na garagem do edifício e acha que estacionou longe quando caminha 50 metros. Não se exercitando, perde um mecanismo de proteção. Diferente da máquina mecânica que desgasta com o uso, a máquina humana quanto mais usada for, mais se regenera. Pessoas que mantêm a atividade física chegam aos 70, 80 anos absolutamente hígidas e sem nenhum problema. |
||||||||