Atletas amputados

Drauzio
- Marco, você é um esportista que perdeu a perna, mas continuou
praticando esportes. Hoje, as próteses permitem que isso aconteça,
mesmo quando a perda foi bilateral. Você conhece outros casos como
o seu?
Marco Guedes - Próteses adequadas permitem dar continuidade
à vida atlética. No Brasil, apesar da pobreza que cerca a reabilitação,
temos alguns indivíduos que conseguiram, de uma maneira ou outra,
aparelhos com dispositivos sofisticados que lhe garantem reabilitação
plena e a possibilidade de desenvolver atividades esportivas bastante
interessantes. Na foto 1 , aparece um grupo no qual me incluo. Sou
o primeiro à esquerda,
essa
figura sorridente. Depois está o Fernando, um triatleta. A moça no
meio, amputada pela técnica de Syme, hoje é mãe de uma criança linda.
O penúltimo é o Maciel que perdeu as duas pernas num acidente de automóvel
absurdo cortadas pelo guardrail de uma estrada. Maciel foi o único
amputado bilateral a completar a maratona de Nova York. Por fim, à
direita, está o Paulo, amputado de um lado só abaixo do joelho, que
não só completou como chegou em primeiro lugar entre os amputados
na maratona de Nova York.
Drauzio
- O guardrail é o anteparo colocado ao lado das estradas como proteção
para os motoristas e passageiros dos veículos. Como pode ter acontecido
um acidente desses?
Marco Guedes - Em vez de proteger, o guardrail em lâmina representa
um perigo nas estradas. Ele deveria ser redondo e encaixado, mas não
é e, com o impacto, pode abrir, entrar no carro e ferir quem está
lá dentro. Foi o que aconteceu com Maciel que teve os dois pés cortados
pelo guardrail num acidente de carro.
Drauzio - Quem aparece nas fotos 2 e 3?
Marco Guedes - A foto 2 mostra um tobogã e foi tirada
no rio Jacaré Pepira, em Brotas (SP). A equipe que opera esse
rafting chama-se EcoAção e mantém uma estrutura
inteiramente adaptada aos portadores de deficiência física,
que conseguem praticar esportes radicais. Não gosto muito desse nome.
Prefiro esportes de aventura que nada têm de radical, uma vez que
são seguros e
ninguém
quer morrer fazendo isso. No rafting, esses esportistas amputados
descem corredeiras dentro de um bote com a ajuda de remos. Na foto
3 aparece outra vez Maciel sem os dois pés, mas adequada e
funcionalmente aparelhado, desta vez praticando arborismo, em meio
das copas das árvores, a sete metros acima do chão,
passando por toras móveis, passarelas e cabos de aço.
Drauzio - Uma vez, numa maratona, passei por uma moça que
tinha uma lâmina em C e fiquei bastante impressionado.
Marco Guedes - Essa lâmina de carbono impulsiona o amputado
que saltita quase como um canguru. Pode-se dizer que esse aparelho
funciona quase como uma mola
O rapaz da foto 4 é o Rivaldo que, usando o aparelho, quebrou
o recorde mundial do Ironman no Havaí, uma prova absurda que
deu origem ao triatlo. A pessoa nada 4km, depois percorre
180km
de bicicleta e corre uma maratona, ou seja, mais 42km. Rudi, que está
na foto 5, não é meu paciente. É um garoto americano de 16 ou 17 anos
que, por causa de uma doença congênita, perdeu as duas pernas acima
do joelho. Hoje ele viaja pelo mundo participando de provas de corrida
e natação usando um aparelho funcional, sem joelho mecânico e sem
a preocupação de colocar próteses cosméticas. Obviamente, quando se
fazem próteses para pessoas comuns, temos o cuidado com o aspecto
cosmético final, mas sempre visando deixar o aparelho o mais
leve e funcional possível para aquele indivíduo.