Papel da fisioterapia

Drauzio - A fisioterapia exige muito
do amputado?
Marco Guedes - Exige, sim, especialmente se os amputados chegarem
com as seqüelas de um serviço mal conduzido de reabilitação,
com deformidades como flexo do joelho ou do quadril, o que deixa as
pessoas mal alinhadas, mal posicionadas. As deformidades do quadril
são especialmente difíceis de corrigir.
O fisioterapeuta tem um trabalho duro pela frente quando recebe, por
exemplo, um idoso com contratura importante. Às vezes, se perde
um joelho que foi salvo pelo cirurgião, e somos obrigados a
fazer uma prótese com o joelho dobrado porque ele não
estende mais. O idoso que recebe um joelho mecânico provavelmente
terá enorme dificuldade para controlá-lo.
Drauzio - O que falta fazer para que isso não ocorra?
Marco Guedes - Fazem falta protocolos e conceitos adequados
e, sem dúvida, fisioterapeutas motivados. Essa motivação parece estar
aparecendo agora. Assim como os cirurgiões, os fisioterapeutas não
gostavam de lidar com amputados por desconhecimento puro e simples
da história da reabilitação possível para esses pacientes. Eu, por
exemplo, não amputo um pé, construo um órgão novo. É um conceito diferente.
Muita gente chama a amputação de cirurgia reconstrutiva. Não é verdade.
A amputação é construtiva, pois se está criando alguma coisa nova
para aquela pessoa e, para realizar esse feito, é preciso conhecer
a história desse tratamento, se não simplesmente se estará cortando
uma perna e fechando um buraco, esquecendo a pessoa que fica com um
coto de amputação inadequado e que vai dar muito trabalho para a equipe
de reabilitação.
Drauzio - Isso para não falar do sofrimento de quem perde
um membro.
Marco Guedes - Não só do sofrimento, mas da perda de qualidade
de vida, especialmente para os idosos que, às vezes, não têm outra
bala na agulha para enfrentar nova cirurgia a fim de consertar o que
não foi feito da forma adequada.