Reabilitação de amputados

Drauzio - Houve uma grande evolução,
infelizmente não acessível a todos, no papel da reabilitação dos amputados.
O que aconteceu realmente nessa área?
Marco Guedes - A reabilitação começa com a notícia. Começa
com a maneira pela qual se coloca para o paciente a proposta da amputação.
Faz diferença se ela é apresentada como perda ou como início de uma
caminhada reabilitadora. A fisioterapia, que é fundamental para o
amputado, também começa nesse momento, senão antes até. De certa forma
isso é utópico em nosso país, quase um sonho, mas o amputado deve
começar a trabalhar logo os músculos qu
e
lhe permitirão ficar em pé e caminhar. No dia seguinte ao da cirurgia,
ainda no leito hospitalar, o paciente começa a ser preparado para
receber um eventual aparelho ortopédico. Trata-se de um trabalho que
deve ser realizado por um time de profissionais. Infelizmente, essa
não é nossa realidade em grande parte dos casos. Existe o cirurgião
que amputa, tira os pontos e considera liquidado aquele evento desagradável.
Provavelmente, mais tarde, alguém passará pelo quarto e deixará o
endereço de uma oficina onde o paciente poderá mandar fazer ou comprar
uma perna mecânica, como se estivesse comprando um disco voador. É
como se eu dissesse - Olhe, Drauzio, tenho alguns endereços de locais
onde se vendem discos voadores. Vá e compre um. - Você ouviria a conversa
fiada do vendedor e compraria o que o dinheiro permitisse sem realmente
saber o que estava levando. Por isso, defendo fortemente o conceito
de que a adaptação dos aparelhos de prótese faz parte da terapia,
que deve ser realizada num centro de reabilitação com equipe multidisciplinar,
com conhecimentos que se imbricam e permitem uma tomada de decisão
visando exclusivamente ao benefício da pessoa amputada. O aparelho
ortopédico prescrito para um homem de 60 anos é muito diferente daquele
indicado para um rapaz de 17 anos, porque as necessidades de cada
um são diferentes. Não é uma questão de quanto a pessoa tem para gastar.
É a sua necessidade dentro da expectativa funcional que existe para
ela. Hoje se fazem próteses no Brasil por licitação pública, pela
internet. Abre-se concorrência para fazer 30 próteses para amputados
e é aprovada a proposta mais barata que vem de uma oficina obscura
ou de um empresário desconhecido, que vai terceirizar o trabalho.
Produzir próteses virou cabide, virou mesa de repartição pública.
Drauzio - A probabilidade de uma prótese assim dar errado
é muito grande
Marco Guedes - É muito grande a probabilidade de dar errado.
Como se pode entregar um aparelho protético acabado para o paciente
treinar, quando o alinhamento preciso desse aparelho só pode ser feito,
no caso de amputação do membro inferior, à medida que a pessoa caminha
sobre ele. Só quando vai passando o desconforto, desaparecendo a insegurança
e o medo e a pessoa consegue colocar mais peso em cima do aparelho,
é possível enxergar erros de posicionamento do pé ou do joelho mecânico,
por exemplo. Insisto que o alinhamento dinâmico da prótese só pode
ser feito quando o paciente consegue andar melhor sobre ela. O problema
é que o camarada da licitação vai receber o dinheiro quando entregar
a prótese terminada e o paciente que perdeu a perna sai com uma debaixo
do braço e vai para casa. De fato ela não custou caro, mas foi dinheiro
jogado fora. Muito mais interessante seria que se investisse mais
um pouco a fim de que, num prazo mais curto, esse indivíduo se tornasse
produtivo de novo, voltasse a trabalhar e a trazer dinheiro para casa.
Se assim não for, será mais uma pessoa a achar que a prótese não deu
certo e a esperar dois ou três anos para aposentar-se por invalidez
e pendurar-se na previdência social. Essa visão está errada, está
doente e precisa ser mudada. É preciso criar escolas para formar esses
empresários obscuros que vivem da amputação alheia, usando artifícios
escusos para entrar em licitações. É uma denúncia séria que faço publicamente.
Isso acontece e é muito triste. Temos de encaminhar esses amputados
para serviços sérios de reabilitação, onde não pese o preço do aparelho,
mas a capacidade profissional do técnico. Se a prótese não estiver
boa, ele faz de novo sem comprometer o dinheiro do seu bolso. É um
bom técnico, com bom salário, que trabalha sob orientação e participando
de uma equipe que tem aspirações mais amplas do que fazer um pedaço
de coisa que imita uma perna cortada.