História de Marco

Drauzio - Em várias entrevistas você
se referiu à sua condição de amputado e talvez venha daí seu interesse
maior por essa especialidade. Como você aceitou o fato de que iria
sofrer uma amputação e receber uma prótese?
Marco Guedes - Na verdade, não aceitei, eu decidi. Sofri um
acidente de moto em dezembro de 1974. Estava terminando o quinto ano
da Faculdade de Medicina da USP. Tentando escapar de uma colisão,
bati de frente no pára-choque de um ônibus e minha perna foi prensada
contra o tanque de gasolina da moto. Você pode imaginar o que acontece
com nossos pobres
ossos
num choque como esse a 60km por hora. No momento em que caí no acostamento
e tentei levantar, não achei a minha perna. Quando olhei para ela
e vi o estrago, tive plena convicção de que a havia perdido. No entanto,
estava vivo, sem nenhum outro esfolado, minha cabeça estava inteira
e fui para o HC, o meu hospital, onde eu queria ser tratado. Aí começou
um esforço, inclusive com fundo emocional muito forte - um futuro
colega, um aluno da escola - para salvar o meu pé. Depois de uma semana,
não enxergava mais de tão toxemiado que estava. O azar é que eu tinha
ficado com um pé viável do ponto de vista vascular, embora destruído
funcionalmente. Tinha um segmento enorme da perna com incontáveis
fragmentos ósseos e lesões nas partes moles, na musculatura, nos nervos.
Eu já não conseguia enxergar direito pessoas a curta distância. Tudo
ficara nebuloso e escuro, fruto das toxinas que tinham se espalhado
pelo meu organismo.
Drauzio - Isso para não falar na dor que devia ser terrível.
Marco Guedes - A dor era intensa porque a limpeza da ferida
implicava tirar tecido desvitalizado, tecido morto, até sangrar e,
quando sangrava, doía muito. Chegou uma hora, porém, em que o colega
que me tratava comentou com o ajudante que a costura arterial tinha
ficado aparente. Isso queria dizer que a passagem do sangue seria
comprometida, pois a emenda da artéria estava exposta ao ar. E ele
comentou - vamos pegar uma parte da outra perna para tapar esse buraco.
Isso se chama crossleg, ou seja, você cruza uma perna sobre a outra,
na posição do Cristo crucificado, vira um pedaço da pele boa e tapa
o ferimento. Esse procedimento pressupunha que eu deveria ficar três
semanas com uma perna presa a outra por fios. Ouvi aquilo e falei
- nem olhem para a outra perna, esqueçam que ela existe -. Nesse caso,
vamos ter que amputar sua perna foi a resposta que me deram. Então,
o diagnóstico está fechado. Vamos fazer a amputação, decidi naquele
momento e passei por uma cirurgia em que minha perna foi amputada
abaixo do joelho. Talvez para mim tenha sido mais fácil tomar essa
atitude, porque já era quase médico, gostava de trauma e de ortopedia
e tinha uma visão razoavelmente ampla do assunto, embora até hoje
ainda persistam dogmas e conceitos errados sobre amputação na classe
médica.
Drauzio - Em algum momento você se arrependeu dessa atitude
que tomou?
Marco Guedes - Nunca. Na noite passada, pensando nesta entrevista,
pensei que se tivesse que tomar de novo essa decisão, faria exatamente
como fiz naquela época. A amputação me permitiu reabilitar-me, ser
cirurgião e trabalhar com traumatologia como sempre quis, casar, ter
filhos e educá-los. Permitiu também que exercesse uma atividade profissional
riquíssima e extremamente útil aos outros. Esse episódio em minha
vida, sem dúvida, se transformou numa virtude que me ajudou a desenvolver
melhor o trabalho ao qual me dedico.