Evolução do conceito de prótese

Drauzio - Como evoluiu o conceito de
prótese nos últimos anos?
Marco Guedes - A mudança mais importante foi desvincular do
processo de criação desses aparelhos a idéia de reposição da imagem
cosmética do membro perdido. Por muito tempo priorizou-se a reposição
da imagem corporal em detrimento da reposição funcional. A história
do desenvolvimento desses aparelhos foi marcada por um evento infeliz
para o americano Van Phillips e feliz para todos os outros amputados.
Nos idos de 1970, Van Phillips estava esquiando puxado por uma lancha
num lago da Califórnia, quando caiu na água com os esquis presos nos
pés. Percebendo que outra lancha se aproximava, tentou afundar, mas
os esquis não deixaram que submergisse e seu pé foi cortado pela hélice
da outra lancha. Ele era um tipo criativo, um excelente ator que trabalha
va
em rádio, e não se conformou com o aparelho protético que lhe deram.
- "Puxa vida, tenho dificuldade para descer uma simples guia de calçada"
- era uma de suas queixas. Foi, então, que decidiu fazer o curso de
técnico em prótese e órtese na Northwestern University em Chicago,
à procura de uma solução mais adequada para seu caso e transformou-se
num pesquisador brilhante no campo das amputações. Seu grande mérito
foi desenhar pés mecânicos pensando na reposição de suas funções,
como a absorção do impacto e a impulsão. Seu objetivo era recuperar
a impulsão que as pessoas têm quando desprendem o pé do solo durante
a marcha, impulsão que empurra o corpo para frente. Com o desenho
simples de um C numa lâmina de carbono que funciona como um pé mecânico
totalmente desvinculado da imagem cosmética, Van Phillips conseguiu
devolver essa função para a pessoa amputada. Só mais tarde se pensou
na aparência estética que permitisse ao amputado estar, por exemplo,
num casamento ou num batizado sem ser o centro de atenção da festa
o que, sem dúvida, faz sentido. Não faz sentido, porém, a pessoa amputada
buscar uma reposição cosmética para esconder-se atrás de um membro
artificial, fingindo ter um braço ou uma perna, e fechar-se para as
oportunidades que a vida oferece, trancando portas e janelas da existência
por medo de ser vista como tendo passado por uma amputação. Essa visão
precisa acabar definitivamente. Dentro do novo conceito de reabilitação,
procura-se valorizar o resgate funcional do amputado acima do resgate
da imagem física. Não estou dizendo que ele deva andar com coisas
estranhas pelas ruas só porque é amputado. Estou dizendo que deve
tentar recuperar a função para a qual seu corpo se presta
na vida, que é servir de veículo para pegar objetos,
caminhar, subir escadas, descer uma rampa, etc. Depois se pode pensar
no artifício cosmético aplicado sobre o aparelho que
lhe permita passar despercebido onde for confortável, em situações
públicas com pessoas desconhecidas em volta, como numa festa,
por exemplo.
O que realmente é sério é o amputado adquirir
a visão de que está doente e precisa ser tratado. É
esconder-se atrás de uma imitação por assim dizer
perfeita, mas que não passa de uma perna ou um braço
de boneca.
Drauzio - Próteses que nada acrescentam funcionalmente aos
amputados.
Marco Guedes - Vi pessoas com próteses que imitavam a pele
e os pêlos, mas você olhava e via imediatamente que era uma prótese.
Oxalá um dia se consiga um pé mecânico funcional e cosmeticamente
perfeito, o que sem dúvida trará grande conforto na reposição da perda
de um membro.