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Parte I - O mundo das bactérias
Capacidade de adaptação das bactérias
Troca de material genético
Cassete de informações genéticas
Papel da flora bacteriológica
Mecanismo de sobrevivência das bactérias
Estímulo ao desenvolvimento do sistema imunológico
Parte II - Diversidade das bactérias
Microorganismos salvadores da Terra
O futuro da Bacteriologia
Outros campos de utilização do conhecimento sobre bactérias
Ensino da Microbiologia para crianças





Dr. Luiz Trabulsi falecido em 05/06/2005, foi bacteriologista. Médico, foi professor na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de São Paulo. Trabalhou no Instituto Butantã.

Parte II - Diversidade das bactérias

Drauzio O senhor disse que conhecemos aproximadamente apenas 50% das bactérias que nos colonizam. Como foi montada essa combinação de genes que lhes garantiu diversidade tão expressiva?
Trabulsi – Conhecemos 50% delas, mas ainda superficialmente. Mesmo considerando as já cultivadas, sabemos muito pouco de suas relações com nosso organismo, pois só agora está sendo possível estudá-las melhor graças às técnicas desenvolvidas pela biologia molecular.
Recentemente foi descoberto que esses microorganismos se comunicam uns com os outros e com as nossas células. A conversa bactéria-bactéria, por exemplo, se realiza por meio de substâncias químicas que elas secretam. É o chamado quorumsensing, termo criado por um advogado, amigo de um microbiologista, para expressar que essa comunicação se estabelece quando as bactérias atingem determinado número - quorum - e começam a secretar auto-indutores, substâncias que são transferidas para outras bactérias e vão interferir no funcionamento e na expressão de seus genes, provocando uma série de propriedades novas na bactéria que recebeu a informação. Por exemplo, o vibriocólera e outros patógenos importantes passam a informação no momento em que sentem ter atingido nível populacional adequado para sua sobrevivência e consideram-se prontos para invadir o organismo e causar infecção. Imagine esse contato íntimo ocorrendo nos intestinos onde temos de 500 a 1000 espécies diferentes de bactérias.
A comunicação da bactéria com a célula eucariótica dá-se de forma diferente. Estimulada pela proximidade da bactéria, a célula a incorpora e disso decorrem endocitoses e fagocitoses. Na verdade, a bactéria subverte o mecanismo fisiológico das células fazendo com que microorganismos unicelulares se escondam dentro delas e se protejam dos anticorpos. Estudos também recentes mostram que, só em contato com a célula eucariótica, o aparelho secretor da bactéria se abre e lança proteínas de virulência. É a chamada secreção contato-dependente.
Essa comunicação existente entre bactéria-bactéria e bactéria-célula do hospedeiro explica essa diversidade, essa variação tremenda de bactérias. E estou me referindo apenas às que causam doenças porque a respeito das normais sabemos muito pouco.
Atualmente, foi levantada a hipótese de que certas bactérias patogênicas só expressam sua patogenicidade quando fazem contato com a célula normal. A Escherichia coli hemorrágica, por exemplo, atravessa o estômago e alcança os intestinos. Chegando ao cólon, recebe auto-indutores da flora normal e passa a produzir toxinas que vão causar doenças.

Drauzio Existiria, então, uma conversa entre as bactérias normais e aquelas que vão tornar-se patogênicas?
Trabulsi – Uma conversa diabólica, porque a normal está alimentando a outra. Estou desenvolvendo um projeto para investigar mais a fundo esse aspecto da flora intestinal que está emergindo agora com força.

Drauzio – Quando estudamos as bactérias patogênicas, os fungos e os vírus, somos tentados a imaginar que eles são capazes de perceber as reações do organismo e tomar partido disso para ludibriá-lo. Na verdade, trata-se apenas de um mecanismo de seleção natural.

Trabulsi – Se esses bichinhos estão aí há três bilhões de anos, diversificaram-se de tal maneira que estavam prontos para adaptar-se a todas as situações e a colonizar todos os seres que surgiram depois deles. Esses microorganismos não só prepararam a Terra para ser habitada pelos demais seres vivos, como continuam mantendo-a em condições para que isso aconteça, pois sem o ciclo de carbono e nitrogênio não haveria vida. Hoje sabemos que a fotossíntese, antes atribuída somente aos vegetais, 50% dela é feita por bactérias e algas unicelulares. São tantas as descobertas que se pode até pensar que talvez esses microorganismos sejam os salvadores do mundo.