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Infarto
Numa madrugada de dezembro de 1999, acordei com dor forte no peito que se irradiava para o braço esquerdo. Apesar das evidências, não acreditei na possibilidade de estar tendo um infarto e não vi razão para acordar meu marido.Meses antes um amigo tinha infartado e me descrevera o que havia sentido: suor frio e abundante, muito enjôo, profundo mal-estar, alguma dificuldade de respiração, dor difusa no tórax. Por sorte foi socorrido a tempo e pôde me contar tudo isso. Comparei meus sintomas aos dele: eram muito diferentes. Além do mais, crescera ouvindo que mulheres raramente infartam e, na minha família, problemas do coração antes dos 60 anos só se fossem os afetivos. E eu ainda não tinha chegado lá. Mais tarde, porém, soube da história de um avô, que mal conheci, atormentado pelas crises de angina. Atribuí a menor disposição do dia seguinte à noite mal dormida. A dor tinha desaparecido. Portanto, era hora de retomar a rotina. Todavia ela voltou intensa na noite do reveillon de 2000. Parei de dançar, sentei-me ao ar livre, fiquei quietinha e a pressão no peito foi acalmando lentamente. Dessa vez, não titubeei e fui ao médico, que me pediu vários exames cujos resultados requeriam maiores esclarecimentos. O cateterismo realizado a seguir revelou a obstrução total de uma artéria o que tornava inviável a angioplastia. Os sintomas daquela noite de dezembro tinham sido brandos, porque, sabe Deus como, eu havia desenvolvido uma circulação periférica suficiente para irrigar razoavelmente a parte afetada do músculo cardíaco se dela não fosse exigido esforço maior. Cardiopatia isquêmica foi o diagnóstico. Na maioria das vezes, essas coisas não acontecem de uma hora para outra. O corpo costuma dar sinais de que algo não vai bem e a gente finge não perceber. Em algumas ocasiões, já tinha sentido dor no peito, nos braços, ora no direito, ora no esquerdo, no pescoço e no estômago. Era uma espécie de cólica muito forte que ia passando devagar e para qual eu encontrava inúmeras explicações: gastrite, mau jeito na coluna, postura incorreta, tensão, estresse. O cansaço impertinente ficava por conta do excesso de trabalho e da falta de tempo para o lazer. O desequilíbrio hormonal era responsável pelo suor gelado aliado à indisposição de certos momentos. Nunca me considerei sedentária, mas nos últimos anos as atividades profissionais demandavam pouco movimento. Já nem me lembrava de quando deixara de praticar exercícios físicos regular e sistematicamente. Conseqüência natural, meu peso tinha subido. Claro que não estava satisfeita com essas mudanças e as desculpas que inventava incluíam ter deixado de fumar recentemente. Sabia que era hipertensa e tinha colesterol elevado, mas achava que, tomando direitinho os remédios prescritos pelo médico, o risco de doenças circulatórias estaria afastado. E não estava. Se olho para trás, reconheço não ter levado em consideração os múltiplos fatores desencadeantes do infarto que meu corpo insistia em denunciar. Afinal, estamos sempre convictos de que determinadas coisas acontecem apenas na vida dos outros. Definição Infarto é a necrose de uma parte do músculo cardíaco causada pela ausência de irrigação sanguínea que leva nutrientes e oxigênio ao coração. Segundo o médico cardiologista Eulógio Martinez, "infarto é o entupimento agudo de uma artéria do coração por um coágulo, um trombo, que se desprende de um ateroma, isto é, de uma placa de gordura que se deposita na parede da artéria, e bloqueia a circulação sanguínea. Privada de oxigenação, essa área sofre lesões irreversíveis (necroses) que caracterizam o infarto do miocárdio. A gravidade desse acidente vascular está proporcionalmente ligada à importância e extensão da musculatura cardíaca que deixou de ser irrigada." Fatores de risco O infarto do miocárdio é uma doença multifatorial, ou seja, uma doença provocada por diversos fatores que agem conjunta e simultaneamente. Entre eles, Edson Stefanini, médico cardiologista, destaca: 1) hereditariedade: se na família existem parentes próximos que tiveram infarto, angina ou foram operados do coração antes dos 60 anos, é preciso estar atento porque aspectos genéticos são relevantes para o desenvolvimento da doença; 2) pressão arterial: controlar a pressão arterial e mantê-la em níveis adequados é fundamental para prevenir doenças cardíacas. Considera-se pressão arterial normal a que se encontra entre a máxima de 14 e a mínima de 9. Então, 14 por 9 seriam os limites aceitáveis das máximas e mínimas; 3) diabetes: o controle da glicemia (nível de açúcar no sangue) é indispensável, especialmente se a pessoa já for portadora da doença. Os diabéticos, às vezes, sofrem infartos subclínicos, que não provocam o sintoma convencional de dor no peito. Nesses casos, mal-estar, sudorese, náuseas e até vômitos são atribuídos a algum problema de menor importância; 4) colesterol: o controle do metabolismo das gorduras tem de ser sistemático e permanente. Existem medicamentos eficazes que ajudam manter o valor do colesterol total abaixo de 200 e elevar o nível de sua fração protetora, o HDL, conhecido como o bom colesterol. Exercícios físicos favorecem o aumento do HDL; o cigarro o diminui; 5) triglicérides: em geral, os triglicérides sobem quando há aumento da ingestão de carboidratos; 6) tabagismo: a nicotina é um dos mais agressivos fatores de risco das doenças cardiovasculares. Ficar longe do cigarro é a única opção para quem quer e precisa prevenir-se; 7) estresse: o estresse crônico, quando associado a outros fatores de risco, aumenta a probabilidade de infarto. Na opinião do especialista, Marco Aurélio Dias, o estresse é um dos principais responsáveis pelas doenças do coração. Sintomas É importante ressaltar que os sintomas do infarto podem variar muito. Nos casos de diabetes, o infarto pode ser assintomático. Recomendações Prevenção A melhor maneira de evitar o infarto é reduzir a exposição aos fatores de risco: fumo, obesidade, diabetes, hipertensão, níveis altos de colesterol, estresse, vida sedentária e/ou histórico pessoal ou familiar de doenças cardíacas. Carlos Alberto Pastore, cardiologista do Instituto do Coração de São Paulo, dá detalhes do que se deve fazer para prevenir doenças do coração. |
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