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Qualidade da sobrevida das vítimas da violência Drauzio – Na verdade, nós não temos uma idéia das conseqüências médicas da violência a longo prazo. Chamam a atenção os casos rumorosos de pessoas conhecidas no instante que acontecem, mas depois não se fala mais no assunto. Como vivem essas pessoas a longo prazo? J.Greve – Indivíduos que sofreram traumas graves de crânio, por exemplo, nunca mais voltarão a ser como eram antes. Eles apresentam seqüelas definitivas e permanentes em termos de cognição. Não conseguem comunicar-se adequadamente, perdem a memória e a habilidade de relacionar-se com outras pessoas. Muitos melhoram, voltam a andar, aparecem em alguns eventos sociais, mas não são os mesmos de antes do acidente e é impossível precisar quantos anos de processo de reabilitação, de fisioterapia, de fonoaudiologia são necessários para que atinjam um nível razoável de qualidade de vida. Vítimas de trauma craniencefálico, muitos não conseguem recuperar-se e não mais são vistos, porque ficaram bastante comprometidos e ainda permanecem em processo de reabilitação. Talvez, o Super-Homem seja o mais conhecido deles. Ele aparece de vez em quando, recuperou um pouco a sensibilidade, mas continua tetraplégico, usando respirador 24 horas por dia, sem se mexer e dependendo de terceiros para tudo. E ele é o Super-Homem, alguém que conta com uma retaguarda de primeira linha. Imagine isso acontecendo com uma pessoa comum, numa família sem recursos, o que significa em termos de desarranjo familiar. O Brasil, um país pobre, não tem como dar suporte para os indivíduos que ficam incapacitados. Em alguns lugares desenvolvidos, especialmente nos países escandinavos e na Holanda, existe retaguarda para atender os que ficaram tetraplégicos. Aqui, depois de dois ou três meses de internação no Hospital das Clínicas, o que normalmente acontece é a família receber orientações sobre como deve tratá-los e eles voltam para casa. Além de não haver a perspectiva de reassumirem suas atividades profissionais, eles requerem cuidados contínuos de um familiar que também será obrigado a abandonar o trabalho ou de um terceiro que terá de ser remunerado. Sob certos aspectos, transformam-se num peso, especialmente porque, com cuidados adequados, essas pessoas vivem muito tempo, aliás, tudo é feito para que vivam muito tempo. Como não há solução de cura para esses casos, o melhor remédio continua sendo a prevenção. É preciso pensar não só nas mortes provocadas pela violência, mas nas pessoas que ficam incapacitadas e em suas famílias, principalmente as mais pobres, já que não podem contar com ajuda externa para garantir ao doente um mínimo de qualidade de vida. Drauzio – Esses acidentados que ficam com seqüelas mais graves exigem atenção e cuidados permanentes. Famílias sem recurso devem ficar numa situação muito complicada para prestar o atendimento de que eles tanto necessitam. J.Greve – Depois de algum tempo, eu diria que se nota não uma rejeição, mas um cansaço permeado de certo desânimo porque não há a esperança de regressão do quadro. Isso mina muitas relações familiares. Casamentos se desfazem, filhos não conseguem cuidar dos pais e os próprios pais se cansam de cuidar dos filhos, o que gera uma tensão social nada desprezível. Outro fato importante é que esses indivíduos são muito jovens, em geral, têm menos de 30 anos e, muitas vezes, eram os responsáveis por manter suas famílias. Some-se a perda do mantenedor ao peso que sua incapacidade significa e o resultado será uma família mais pobre ainda do que era antes. Sem computar as despesas com o atendimento dentro de um hospital público, com a previdência e com a sociedade como um todo, um trabalho realizado com o IPEA a respeito dos custos de acidentes de trânsito revela que um indivíduo incapacitado por lesão na coluna, um paraplégico, só de assistência médica pós-lesão, nos primeiros dois anos, custa para a família entre 50 mil e100 mil reais. Imagine o que essa cifra representa para quem ganha salário mínimo ou pouco mais que isso. É preciso comprar uma cadeira de rodas e remédios, pagar pessoas que cuidem desse indivíduo que deixa de ter rendimentos porque não consegue mais trabalhar. Em São Paulo, atualmente, a prevalência de lesão medular para cada milhão de habitantes é igual a sua prevalência no auge da guerra da Bósnia. São 60 ou 70 casos novos por ano. Pode-se dizer, sem exagero, que vivemos num ambiente de guerra. O Brasil é um país pobre e tem muitos problemas estruturais para resolver, como nutrir bem as nossas crianças e educá-las convenientemente. Vítimas da violência demandam enorme quantidade de serviços médicos. Os pacientes têm dificuldades urinárias e para esvaziar o intestino, sexuais, motoras, de sensibilidade e podem formar escaras na pele. O tratamento é altamente especializado e complexo. Reabilitação é um processo caro. É longo e exige equipe multidisciplinar. Uma lesão medular faz o indivíduo orbitar pelo menos durante um ano em torno do hospital e do centro de reabilitação. Hoje, há carência desses centros por causa da maior demanda de pacientes vítimas da violência. Às vezes, a pessoa é obrigada a esperar seis meses por uma vaga para ser atendida. É uma situação insustentável. Algo precisa ser feito para controlar a epidemia dessa doença contagiosa que é a violência. |
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