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Dra. Júlia Greve é médica fisiatra. Trabalha no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo onde recebe vítimas de atos violentos para serem tratadas e submetidas a longo processo de reabilitação.

Violência contra crianças

DrauzioE em relação às crianças pequenas?
J.Greve – Em relação às crianças pequenas, evidentemente o número é menor, mas mesmo assim é assustador. É enorme a quantidade de crianças atingidas por bala perdida, por violência doméstica ou agressão interpessoal, porque elas moram em ambientes onde são comuns os acertos de conta entre gangues comprometidas com o tráfico de drogas.
Mais grave, ainda, é o caso de crianças de 10, 12 anos vítimas de atos violentos não por acaso, mas porque estavam pessoalmente envolvidas com o processo de violência desde muito cedo. Não foi uma bala perdida que as atingiu. Elas faziam parte do grupo envolvido na confusão.

DrauzioNo caso específico da violência doméstica contra crianças, sua impressão é que o número de casos está aumentando?
J.Greve – Não conheço estatística segura sobre o assunto, mas tenho a impressão de que há um aumento significativo desses casos. Aparentemente, o fato de ter crescido o número de separações e existirem famílias compostas por pais e mães que não são os de sangue tem pesado no universo da violência doméstica contra criança.
Na verdade, alguns estudos mostram dados alarmantes e crescentes em relação a esse tipo de violência. Apesar de nas classes sociais mais baixas os casos serem mais expostos, o problema não é exclusivo dessa camada social, só que nas outras ocorre de forma mais camuflada.

DrauzioCom que ferimentos essas crianças costumam chegar ao pronto-socorro?
J.Greve – As crianças com síndrome de espancamento chegam geralmente com lesões ósseas, com fraturas múltiplas. Percebe-se, ainda, a existência de calos ósseos indicativos de fraturas anteriores em fase de cicatrização. Em relação à violência doméstica, são mais lesões musculoesqueléticas do que lesões neurológicas.
Sob o ponto de vista físico, essas fraturas costumam não deixar seqüelas, embora as seqüelas psicológicas, sabe-se lá quais serão. Traumas de crânio são mais raros em crianças espancadas, mas ocorrem quando elas são arremessadas pelos adultos.

DrauzioQuem costuma ser o autor desse tipo de violência?
J.Greve – Os familiares mais próximos.

DrauzioMais o pai ou mais a mãe?
J.Greve – Parece que é mais o pai, geralmente um indivíduo mais violento e usuário de drogas, que traz para casa os problemas da rua. Esses dados, porém, merecem estudo mais aprofundado, pois acho que muitos casos de violência contra a criança estão relacionados à figura materna.