|
|
|
|
||||||||
|
|
|
Tipos de seqüelas da violência Drauzio – Na casuística de vocês, qual a diferença fundamental entre os vários tipos de seqüela da violência urbana entre os que são feridos por arma de fogo, os que sofrem acidentes de automóvel ou de moto? J.Greve – Pode-se dizer que os motociclistas são mais atingidos nos membros inferiores. Essas lesões podem levar a seqüelas permanentes provocadas por amputações ou por fraturas graves que causam rigidez e imobilidade da perna. Eles apresentam, porém, menos lesões neurológicas. Já os ferimentos por armas de fogo constituem a causa mais importante de lesão na coluna vertebral, uma estrutura muito comprida. Por isso, a possibilidade de o tiro atingir uma região próxima à coluna ou transpassá-la e provocar paraplegia é muito grande. Drauzio – Considerando a extensão da coluna vertebral, quais as conseqüências das lesões à medida que sobem da região lombar para a cervical? ![]() J.Greve – A coluna possui todos os nervos que levam informações motoras e sensitivas para os membros inferiores e superiores e para o tronco. Quanto mais alta a lesão, mais movimentos serão perdidos. Uma lesão na coluna cervical, isto é, na altura do pescoço, resulta em tetraplegia porque secciona as fibras nervosas e compromete o que fica abaixo do ferimento. Quer dizer, o indivíduo perde o movimento dos braços, do tronco e das pernas. Essa é a lesão de coluna mais grave que existe. Uma lesão na coluna torácica pode provocar a perda da movimentação das pernas e do tronco e, na coluna lombar, perda da movimentação das pernas. Melhor dizendo: uma lesão mais alta no tórax compromete o movimento dos membros inferiores e a musculatura do abdômen e das costas. O indivíduo fica meio desequilibrado e com dificuldade para sentar-se. Se a lesão for lombar, o equilíbrio melhora e, quanto mais baixa for, maior independência e funcionalidade o paciente vai apresentar. Em lesões da coluna bem baixas, ele pode até preservar alguns movimentos das pernas e não precisar da cadeira de rodas. Às vezes, nem de um aparelho ortopédico tem necessidade. Drauzio – São muitos os casos de lesões na coluna cervical? J.Greve – São muitos os casos. No trânsito, com a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança, as lesões torácicas e lombares praticamente desapareceram. Se os ocupantes do veículo baterem o carro de frente, porém, podem sofrer uma lesão na coluna cervical por causa de um fenômeno chamado chicote. Drauzio – O impacto do carro em alta velocidade faz com que a cabeça seja jogada para frente e volte num movimento de chicote bastante brusco, não é? J. Greve – A cabeça é praticamente o único segmento que está solto dentro do veículo, se a pessoa estiver usando o cinto de segurança de três pontas. Isso a torna mais vulnerável às lesões da coluna cervical nos acidentes de automóvel. Drauzio – E os atropelamentos e quedas? J.Greve - Os atropelados ainda sofrem lesões de todos os tipos. Temos observado também um número crescente de acidentes provocados por quedas. Principalmente na periferia, as vítimas são os próprios donos dos terrenos que aos poucos vão construindo suas casas e sobrepondo um andar ao outro. Esse comportamento social que tem se desenvolvido bastante de uns tempos para cá facilita a ocorrência de quedas e de lesões medulares. Drauzio – Trata-se de um fenômeno nacional. Acabaram-se os telhados nas casas da periferia. Os donos constroem o andar térreo, cobrem com uma laje e esperam juntar um dinheirinho para continuar a construção ou vendem o andar de cima para que outro o faça. Enquanto isso não acontece, as lajes são utilizadas para a mulher estender roupa ou nos churrascos de fim de semana. E ninguém cerca a laje. Na periferia de qualquer cidade brasileira, elas podem ser vistas sem nenhum tipo de proteção ao redor. J.Greve – O número de acidentes por queda de laje tem aumentado muito. Antes, eram quedas de árvores. As pessoas sofriam lesões medulares porque subiam em árvores para apanhar frutas e caíam. Hoje, caem das lajes. Isso fez crescer o número de acidentes, inclusive entre as mulheres que usam esse espaço para colocar varais e estender roupa. Drauzio – As mulheres são menos atingidas pela violência urbana? J.Greve - As mulheres são muito menos atingidas. No entanto, acho que o comportamento feminino está mudando um pouco. O número de acidentes de trânsito com mulheres mais jovens está aumentando, assim como os casos de violência associados ao consumo de álcool, mas a proporção é ainda de cinco ou seis homens para uma mulher. |
||||||||