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Novo enfoque de tratamento Drauzio – Quando me formei na década de 1960, na faculdade de medicina, um jovem que tivesse ficado paraplégico porque havia sofrido um acidente de automóvel ou levado um tiro, recebia atendimento de urgência e, depois, a alta hospitalar com uma receita de cadeira de rodas. Não havia a menor preocupação em adaptar essa pessoa às novas condições de vida. O que mudou esse enfoque nos últimos anos? J.Greve – Acho que estamos conseguindo salvar mais vidas. Muitas pessoas que morriam porque a medicina não tinha como tratar, hoje são tratadas e sobrevivem. Sobrevivem com seqüelas, às vezes muito graves, porque certas lesões deixaram de ser fatais como eram no passado, mas provocam sérios comprometimentos. Drauzio – A que tipo de lesões você está se referindo? J.Greve – Eu me refiro às lesões neurológicas, aos traumas de crânio e de coluna. Antigamente, o indivíduo que tivesse uma lesão como a de Christopher Reeve, o Super-Homem do cinema, não teria chegado vivo ao hospital, porque a lesão medular foi muito alta e o comprometimento da musculatura respiratória provocaria uma parada da respiração. Ele não só chegou vivo, como está vivo até hoje, vários anos depois do acidente. A qualidade de vida pode ser discutível, mas ele sobreviveu graças aos recursos de reabilitação e à fisioterapia eficiente do ponto de vista respiratório e da manutenção dos movimentos. Pacientes como Reeve nos fizeram perceber que o indivíduo bem tratado na fase aguda, quando se tenta limitar os danos iniciais, provavelmente usufruirá melhor qualidade de vida. Nesse momento, é indispensável uma abordagem clara da incapacidade e das seqüelas que possam advir. Se o paciente ficar na terapia intensiva, por exemplo, e seu pé permanecer imóvel, estará rígido ao cabo de dois ou três meses e, mesmo que se recupere dos traumas sofridos, vai precisar de cirurgias para poder andar. Por isso, imaginar as possibilidades de evolução do quadro para prevenir o aparecimento de outras seqüelas além das que certamente terá, deve ser preocupação constante de quem lida com esses pacientes. Se a cadeira de rodas for um aparelho adequado para o tipo de lesões de determinado indivíduo, por exemplo, ele será muito mais independente do que se tiver uma cadeira pesada, com rodas que não giram e que não dê firmeza a seu corpo. Drauzio – Essas pessoas precisam adaptar todo o organismo e especialmente a musculatura para andar na cadeira de rodas, não é? J.Greve – Se pensarmos num atleta, num maratonista, por exemplo, o esforço físico que faz para correr 100m rasos numa velocidade competitiva é quase o mesmo ao de um indivíduo para mover uma cadeira de rodas por 100m. Se ele era sedentário, então, é evidente que não estará preparado para tal demanda física. O processo de reabilitação pressupõe um treinamento que o prepare, da forma mais adequada possível, para valer-se do que lhe sobrou em termos de movimentação do organismo. É claro que existem seqüelas extremamente graves para as quais a medicina não encontrou respostas terapêuticas satisfatórias. De qualquer maneira, se compararmos os indivíduos que ficaram paraplégicos depois da Segunda Guerra Mundial ou depois da Guerra do Vietnã com os paraplégicos desta guerra urbana, veremos que estes últimos têm perspectiva de uma vida melhor, com muito menos complicações e tempo maior de sobrevivência graças aos cuidados organizados e padronizados de reabilitação. |
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