|
|
|
|
||||||||
|
|
|
Possibilidades de tratamento Drauzio - Há tratamentos eficazes para o transtorno bipolar atualmente? Valentim – Há tratamentos tão eficazes quanto os existentes em qualquer outra área da medicina. Sua aplicação possibilita, em poucas semanas, reverter um quadro grave de euforia. A doença não tem cura, mas as pessoas melhoram, recebem alta e reassumem suas atividades. Se não se expuseram demais e não ficaram estigmatizadas pelo comportamento aberrante, serão acolhidas como alguém que teve um desequilíbrio metabólico qualquer ou uma ausência provocada pela ingestão de drogas. Isso se consegue com medicamentos (neurolépticos, antipsicóticos, estabilizadores do humor) e a retirada de certas substâncias (cafeína, cocaína, anfetaminas) que agravam o quadro. O risco de recaída ou de evoluir para depressão existe e é preciso estar atento ao uso de medicamentos antidepressivos que, embora eficazes, podem precipitar uma virada indesejável para a euforia ou acelerar a freqüência das crises. Em se tratando do lítio, o incrível é que os médicos do Império Romano encaminhavam seus pacientes com mania e melancolia para uma estação de águas ricas em lítio. Mesmo desconhecendo a existência dessa substância, haviam percebido que ali eles reagiam melhor do que noutras termas. Outro ponto importante é que o lítio é uma substância tóxica presente em doses bem baixas no organismo. Usado em doses adequadas, porém, é capaz de reverter os quadros de euforia e evitar as recorrências. Tomando lítio, os pacientes podem levar vida normal e dar asas à criatividade. Drauzio – A pessoa precisa sempre estar medicada para levar vida normal? Valentim – Por quanto tempo a pessoa deve tomar lítio para levar vida normal é discussão constante na literatura. Nos EUA, existe um centro de informações do qual constam 35000 artigos que tratam da utilização do lítio nos mais diferentes campos, entre eles, a prevenção da recorrência dos transtornos bipolares. Além disso, está provado que a associação do lítio com anticonvulsivantes e antidepressivos previne recaídas. O lastimável, porém, é que apenas uma parcela pequena da população tenha acesso a esse tratamento. Drauzio – O problema talvez não seja apenas dificuldade de acesso, mas o número insuficiente de profissionais com conhecimento e habilidade para lidar com essas drogas e atender tantos pacientes, não é? Valentim – É um problema mundial. Mesmo nos EUA, onde existem mais recursos, os residentes de psiquiatria não aprendem a usar lítio adequadamente. Segundo seus professores americanos, seria necessário que acompanhassem a evolução dos pacientes durante 6 meses ou 1 ano, para inteirar-se das nuances do tratamento porque o lítio é tóxico e, se não for usado direito, não funciona. Como isso não é possível, eles preferem treinar os residentes para usar anticonvulsivantes que, na maioria dos casos, são desnecessários, causam efeitos colaterais e, a longo prazo, não apresentam os bons resultados do lítio. Por paradoxal que pareça, nem mesmo tendo representado uma economia de 150 bilhões de dólares porque a indicação do lítio no tratamento dos transtornos afetivos evitou internações, violência, suicídios, ele ainda não é usado adequada e regularmente nos EUA. No Brasil, infelizmente, não existem programas de prevenção com o uso de lítio nem treinamento de residentes a não ser em alguns centros universitários que possuem clínicas especializadas em transtorno bipolar, como o Hospital das Clínicas, a Escola Paulista de Medicina e algumas outras universidades paulistas e brasileiras. Diante da dimensão do problema, existir um programa de prevenção deveria estar a cargo da Saúde Pública. |
||||||||