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Fatores genéticos e ambientais Drauzio – Filhos de pessoas com transtorno bipolar apresentam possibilidade maior de desenvolver essa patologia? Valentim – Sabe-se, desde a Antiguidade, que a existência de um caso de transtorno bipolar numa família aumenta a possibilidade de que a enfermidade se manifeste em outros membros da mesma família. O desenvolvimento da genética permitiu analisar grande número de gêmeos nos quais a patologia torna-se mais evidente. Gêmeos idênticos ou monozigóticos possuem genoma absolutamente igual, mas apenas em 80% dos casos os dois irmãos apresentam quadros de euforia e depressão. Embora a porcentagem seja elevada, 20% não manifestam o problema. Cabe perguntar, então, se fatores extragenéticos interferem nesse resultado. Sim e não. Uma vez que ninguém expressa seu genoma completamente, pode-se deduzir que, apesar da carga genética idêntica, só num dos gêmeos ela encontrou as condições necessárias para o desenvolvimento da patologia que certamente depende da interação de tais fatores com o ambiente. Não se pode deixar de considerar também que, além da predisposição e vulnerabilidade geneticamente determinadas, certas situações contribuem para a eclosão ou precipitação do problema. Drauzio - Quais os fatores ambientais mais importantes? Valentim – As evidências indicam que, nos últimos anos, cresceu a incidência desses quadros. Será que aprendemos a diagnosticá-los melhor? Pouco provável, pois algumas descrições do transtorno bipolar datam de 2500 anos atrás, época em que os termos mania e melancolia já eram empregados. Por outro lado, descrições de médicos, no início da era cristã, são idênticas às que encontramos hoje nos melhores livros de psiquiatria. Por que, então, a prevalência de uma doença tão robusta e evidente, tão antiga e bem descrita, está aumentando? Uma das possibilidades é que alguns acontecimentos e atitudes podem precipitar a ocorrência de distúrbios do humor. Hoje, estamos submetidos a uma carga maior de estresse, dormimos menos e consumimos mais substâncias lícitas e ilícitas que interferem no humor. Quer um exemplo? O uso de remédios para emagrecer ou de cafeína é mais freqüente e maior agora do que era no passado. Outro exemplo? O puerpério é uma fase em que é maior o risco de surgirem quadros de depressão e euforia. Para as mulheres, as explicações são muitas: oscilação dos hormônios, parto, nascimento do bebê. Como explicar, porém, a manifestação da doença nos maridos? Certamente, a emoção, a privação do sono, a expectativa, a atmosfera festiva do nascimento desencadeiam a crise, confirmando que a interação de fatores ambientais, constitucionais e genéticos é de extrema importância. Ninguém deve viver numa redoma, mas, se as pessoas levassem em conta que o sistema nervoso é bastante delicado e precisa ser tratado com respeito, talvez a incidência de casos de transtorno afetivo fosse menor do que é atualmente. Drauzio – Existe relação clara entre o uso de cafeína e o transtorno bipolar? Valentim – O uso excessivo de cafeína pode produzir convulsão e algumas pessoas ingerem, todos os dias, quantidades absurdas dessa substância. Cheguei a conhecer uma que tomava 14 litros de coca-cola num único dia e era difícil distinguir seu comportamento do de um indivíduo com transtorno bipolar. E para que as pessoas usam cafeína? Para ficarem acordadas, com mais energia e ânimo, mais alerta. Trata-se, então, de um agente externo, consumido como se fosse alimento, que estimula o humor. No que se refere às drogas ilícitas (cocaína, crack, anfetaminas), seu uso aumenta o risco de desenvolver a primeira crise, assim como aumenta a freqüência das recorrências, que tendem a tornar-se autônomas, fenômeno já apontado na Antiguidade. |
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