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Dr. João Silva de Mendonça é medico infectologista, diretor do Serviço de Moléstias Infecciosas do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Vacinas na idade adulta

DrauzioExiste alguma vacina especial para adultos na faixa de 30, 40 anos?
Mendonça – Nessa faixa de idade, o adulto deve repetir os reforços contra o tétano a cada dez anos ou fazer o esquema básico se não foi vacinado sem esquecer que a vacina só garante proteção se forem administradas as três doses. Se ainda não tomou, deve tomar a vacina contra a hepatite B.

DrauzioNessa idade, os adultos estão numa fase da vida bastante ativa. Há aqueles que viajam muito. Existe algum esquema de vacinas recomendado para essas pessoas?
Mendonça –A vacinação dos viajantes é uma sub-especialidade na área de vacinologia e leva em conta fundamentalmente o lugar para onde a pessoa vai. Dentro do território nacional, existem algumas particularidades que precisam ser respeitadas de acordo com a região a que ela se dirige e, nas viagens internacionais, há interesse em saber quais são as condições de assistência à saúde que encontrará no local de destino. Vamos, por exemplo, considerar o Centro-Oeste, o Norte e, especificamente, a Região Amazônica. É obvio que as pessoas que viajam para esses lugares devem estar com a vacina contra o tétano em dia, porque podem não encontrar reforço emergencial se sofrerem algum ferimento por lá. Como a Região Amazônica é uma das áreas de maior endemicidade de hepatite B do mundo, vale a pena que o viajante esteja também protegido contra a doença. Além disso, é bom pensar que, em geral, as pessoas que visitam essa região não ficam restritas à zona urbana. Entram na floresta onde estão mais expostas às picadas do mosquito transmissor da febre amarela, uma doença grave que em 50% dos casos é fatal. Daí ser a vacina de febre amarela de importância crucial antes da viagem.

DrauzioComo é feita a vacinação contra a febre amarela?
Mendonça – A vacina só oferece proteção dez dias depois da aplicação. Portanto, o ideal seria que o viajante fosse vacinado pelo menos dez dias antes de partir. A imunidade que a vacina produz é excelente. Atinge quase 100% dos casos e, mesmo quando falha, reduz a gravidade e a duração da doença. A vacina de febre amarela faz parte do regulamento sanitário internacional e é recomendado repetir sua aplicação a cada dez anos, seguindo mais ou menos o esquema do tétano, embora seu efeito possa durar muito mais que isso.

Drauzio Você acha, então, que todas as pessoas que viajam para a Região Amazônica e Centro-Oeste e que vão entrar na mata devem obrigatoriamente receber a vacina contra a febre amarela?
Mendonça – Devem. Os números de casos de febre amarela oscilam muito. Há anos em que se registram por volta de dez casos e há outros em que ocorre uma centena. É importante alertar que a doença não está restrita à região conhecida como de risco. Surtos se repetem em certas áreas do Estado de Minas Gerais, por exemplo, o que aumenta o interesse na vacinação. Em relação à febre amarela, o Ministério da Saúde projetou o Brasil de forma muito interessante. A costa atlântica é considerada área livre da doença. Já as regiões Centro-Oeste e Norte são zonas da febre amarela silvestre, ou seja, o macaco e a floresta são reservatórios do mosquito transmissor da doença. Entre as duas, existe um cordão que desce do Piauí e vai até o Rio Grande do Sul e é uma área de transição, de risco intermediário, isto é, normalmente não ocorre transmissão do vírus para o ser humano, embora o risco potencial exista.

Drauzio Em geral quem viaja para esses lugares se preocupa mesmo é com a malária, uma doença para a qual não existe vacina.
Mendonça – Não existe vacina, mas há algumas recomendações clássicas que podem ser observadas, visando a reduzir o risco de ser picado pelo mosquito, que prefere os finais de tarde para suas refeições. Nesse horário, roupas que cubram a maior parte da superfície da pele são as mais indicadas. No Brasil, as autoridades sanitárias não recomendam a profilaxia medicamentosa, pois o uso prolongado dos remédios aumenta o risco de desenvolver resistência e eles deixarão de ser úteis se por acaso a pessoa ficar doente. Internacionalmente, porém, a conduta é outra. Se a pessoa vai viajar para países do Sudeste Asiático e pretende entrar na mata onde há risco de malária, deve fazer a profilaxia medicamentosa.

Drauzio Qual é sua visão pessoal a respeito do assunto?
Mendonça – Minha opinião pessoal diverge um pouco da do Ministério da Saúde. Creio que é correto fazer a profilaxia medicamentosa.

Drauzio Esses medicamentos devem ser tomados por quanto tempo?
Mendonça – Existem vários remédios e várias maneiras diferentes de utilizá-los. Há aqueles que a pessoa deve começar a tomar uma semana antes da viagem e os que podem ser tomados um ou dois dias antes. No entanto, a medicação deve ser mantida durante todo o período de permanência na área de risco e, na volta, por duas ou quatro semanas.

DrauzioResumindo: quem vai para o Centro-Oeste e para a Região Amazônica deve tomar vacinas contra a febre amarela e hepatite B. E no exterior, quais são as regiões que exigem cuidados especiais?
Mendonça – A preocupação maior é com a Ásia, especialmente o Sudeste da Ásia, e com a África, onde há risco de contrair várias doenças que podem ser evitadas com vacinas. Dependendo da região visitada na Índia, por exemplo, a lista de vacinas indicadas pode ser relativamente grande. Podemos começar pela vacina contra raiva, doença não controlada nos cães que circulam livremente pelas ruas do país. Nos pequenos vilarejos rurais, não se pode descartar a hipótese de a pessoa ser mordida por um cão com raiva, mas a possibilidade de encontrar nesses lugares prevenção contra a doença é mínima ou quase inexistente. Por isso, cabe tomar a vacina antes de partir. No passado, a vacina da raiva podia apresentar efeitos colaterais preocupantes. Hoje, não. É uma vacina segura, de altíssima potência e eficácia e praticamente isenta de riscos.

DrauzioE a vacina da cólera? Alguns países ainda exigem o atestado de vacinação?
Mendonça – A vacina da cólera de uso rotineiro não é indicada internacionalmente pela Organização Mundial de Saúde, tendo em vista sua baixíssima eficácia e curtíssimo período de proteção. As autoridades sanitárias brasileiras endossam a posição da OMS. No entanto, a procura permanente por um produto de alta eficácia nos permite acreditar que não esteja distante o momento de conseguir uma vacina de melhor qualidade e que poderá ser usada com mais segurança contra a cólera.