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Dr. Dario Birolini, médico e professor titular de Cirurgia do Trauma na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, atua no pronto-socorro do Hospital das Clínicas (SP) e é diretor clínico do Hospital Sírio-Libanês (SP).

Seqüelas

DrauzioVocê mencionou que o número de pessoas com seqüelas graves depois de um acidente é bem maior do que o número de mortes por traumas. Você poderia dar mais detalhes?
Dario Birolini – Numericamente, tudo indica que existam seqüelas graves na proporção de mais ou menos três para cada morte. Portanto, multiplicando as 130.000 mortes que ocorrem por ano por traumas – e esse é um valor subestimado – 400.000 pessoas sobreviverão com seqüelas por ano, o que é um número gigantesco e absurdo.
Essas seqüelas têm uma série de implicações. Uma vítima de atropelamento, ou de outro trauma qualquer, exige recursos no atendimento que implicam despesas muito grandes. Precisa ser transportada para um hospital, onde é operada na maior parte das vezes, vai para a terapia intensiva e permanece muito tempo internada. Se considerarmos que vivemos num país em que se investe em saúde per capita US$100 por ano e uma diária na UTI custa o equivalente a US$500, dá para entender o desafio que é enfrentar um problema desse tamanho.
Outro aspecto que passa despercebido com freqüência é que as seqüelas acarretam conseqüências que vão além do prejuízo da qualidade de vida. Em termos de custo, a fase de reabilitação do traumatizado é das mais dispendiosas para a sociedade. Daí a importância de discutir-se esse tema, especialmente porque envolve vários aspectos pouco analisados.

Drauzio – Você poderia citar um exemplo?
Dario Birolini – Quase ninguém pergunta, por exemplo, quantas mortes e seqüelas poderiam ser evitadas se a vítima recebesse o atendimento adequado. Embora não tenhamos o levantamento desse dado no Brasil, em outros países onde o problema foi estudado, os números são assustadores porque evidenciam que de 20% a 50% das mortes poderiam não ter acontecido se a pessoa fosse assistida de forma conveniente. Em outras palavras: se for implantado um sistema que permita atendimento pronto, precoce e eficaz, bem planejado e realizado, será possível diminuir entre 20% e 50% o índice de mortalidade. É uma coisa maluca, pois significa que dezenas de milhares de pessoas poderiam não ter morrido ou podem não morrer desde que sejam devidamente atendidas.
Obviamente, o problema é complexo. Quando se fala em bom atendimento estamos considerando desde a estrutura física adequada até profissionais treinados para prestar esse serviço.