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Dr. Dario Birolini, médico e professor titular de Cirurgia do Trauma na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, atua no pronto-socorro do Hospital das Clínicas (SP) e é diretor clínico do Hospital Sírio-Libanês (SP).

Medidas de segurança

Drauzio Durante muitos anos você defendeu a necessidade do uso do cinto de segurança, mas era meio como semear no deserto. Ninguém ouvia. De repente, entrou em vigor uma lei, seguida de fiscalização e multas, e os brasileiros passaram a usar mais o cinto de segurança do que os canadenses. Como você acha que deve ser a intervenção do Estado na implantação de medidas como essa?
Dario Birolini – Continuo achando que o uso do cinto de segurança deve ser obrigatório. As pessoas deviam conscientizar-se de que ele não é uma exigência arbitrária e desagradável, mas uma forma de garantir a segurança do motorista e dos passageiros dos veículos. Entretanto, você já deve ter entrado num táxi e visto o motorista apenas colocar o cinto por cima do corpo, sem fixá-lo, expondo-se a um risco absolutamente desnecessário. Quem age assim deveria ser colocado numa escola até ficar convencido de que o uso do cinto é fundamental para sua segurança. Aliás, o trabalho de conscientização deveria fazer parte do currículo escolar para que desde cedo a criança aprendesse a importância que tem para sua vida adotar certas atitudes.
Por saber que existem indivíduos como o motorista de táxi do exemplo acima, a tendência do mundo inteiro é desenvolver medidas de segurança passiva, isto é, que independem da vontade da pessoa para funcionar. Veja o exemplo do airbag. Ele infla e protege os ocupantes do veículo na hora de uma colisão frontal ou lateral sem que eles precisem fazer coisa alguma.
E tem mais: a preocupação que se tem em aumentar a segurança dos veículos deveria ser a mesma no que se refere aos acidentes de trabalho. A maior parte deles poderia ser evitada desde que fossem adotadas medidas, tanto ativas quanto passivas, de prevenção.

Drauzio Não há a menor dúvida de que o uso do cinto de segurança fez com que diminuíssem os casos de pessoas com lesões graves no rosto por causa da batida do carro.
Dario Birolini – É verdade. Passo visita no pronto-socorro do Hospital das Clínicas e, dependendo do perfil das lesões, sei dizer se a pessoa estava ou não usando o cinto de segurança. Lesões na face e cegueira, por exemplo, são típicas de quem não estava usando cinto. Por isso, continuar insistindo sobre a obrigatoriedade de colocar o cinto assim que a pessoa entra no carro é fundamental para evitar traumas que acarretam prejuízos pessoais e para a sociedade.

Drauzio São muitas as pessoas que morrem ou ficam lesadas por causa de atropelamentos?
Dario Birolini – Nas crianças, passados os três, quatro primeiros anos de vida, a causa de morte por trauma mais freqüente é o atropelamento. Evitá-lo depende de dois fatores: educar a criança no sentido de que entenda seu papel como pedestre no presente e como motorista no futuro e conscientizar o adulto a respeito de como deve dirigir o automóvel. As regras de trânsito, todos conhecemos bastante bem. Só que não adianta conhecê-las; é preciso aplicá-las. Respeitar o farol, a faixa de pedestre, não abusar da velocidade são procedimentos óbvios que evitariam atropelamentos se fossem adotados rotineira e conscientemente.

Drauzio Pessoas mais velhas também são vítimas de atropelamentos com certa freqüência. É curioso notar, porém, que muitas não costumam respeitar regras básicas para atravessar as ruas. Você vê senhores e senhoras de idade, ás vezes a dez ou vinte metros da faixa de segurança, atravessando no meio dos automóveis e correndo o risco de serem atropelados por motocicletas.
Dario Birolini – Sob certo ponto de vista, esse comportamento é reflexo cultural da época em que as pessoas mais velhas começaram a atravessar as ruas. A cidade era outra, muito menos movimentada, e elas não foram educadas de forma conveniente para a realidade atual. Sem dúvida, os idosos também precisam ser esclarecidos sobre como devem portar-se ao atravessar uma rua, mas acho que a ênfase maior deva ser dada à educação da criança.