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Dr. Dario Birolini, médico e professor titular de Cirurgia do Trauma na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, atua no pronto-socorro do Hospital das Clínicas (SP) e é diretor clínico do Hospital Sírio-Libanês (SP).

Acidentes no trânsito

Drauzio – Esse crescimento de casos se verifica também no número de acidentes automobilísticos?
Dario Birolini –
Quando o Código de Trânsito foi implantado alguns anos atrás, houve um decréscimo no número de mortes que tinham como causa acidentes com veículos automotores. Hoje, parece que estamos voltando à situação anterior à vigência dessa lei e as razões são muitas: baixo grau de adesão às regras de trânsito por parte dos motoristas, fiscalização ineficiente, abuso de álcool, entre outras. Para corrigir esse desvio seriam necessárias campanhas de esclarecimento para convencer a população da importância da obediência às leis de trânsito e uma fiscalização bem feita.

Drauzio Não faz muito tempo que praticamente não havia motocicletas em São Paulo. Hoje, elas lotam ruas e avenidas e parece que a cidade não viveria sem elas. O aumento da frota de motos refletiu no número de acidentes de trânsito?
Dario Birolini – Não só fez crescer o número de mortes causadas por acidentes com veículos automotores, como intensificou a gravidade das lesões. Infelizmente, tenho enorme experiência em lesões pélvicas que ocorrem nos acidentes com motos, tanto que sou chamado para dar aulas sobre o assunto em vários países do mundo. Essas lesões são gravíssimas. O motoqueiro cai com as pernas abertas, fratura a bacia, rasga os órgãos genitais e o reto. Não se trata de um acidente que ocorre por fatalidade, uma vez que essas lesões poderiam ser prevenidas e evitadas com um mínimo de cuidado.

DrauzioQuem anda de motocicleta está mais exposto a lesões desse tipo, sem dúvida.
Dario Birolini – No Brasil, existem dois códigos de trânsito: um para o indivíduo que se locomove sobre quatro rodas e outro para quem se locomove sobre duas rodas. Este não obedece à maioria das regras impostas para os que andam sobre quatro rodas. Dirigem entre os veículos em velocidade superior à permitida, ficam ziquezagueando no meio dos carros, não respeitam a sinalização. Cometem tais infrações ao nosso lado e na nossa frente e nós aceitamos tudo mais ou menos passivamente.

Drauzio – Sem medo de errar, pode-se dizer que o número expressivo de mortes e traumas com seqüelas que ocorrem todos os dias está associado à enorme frota de motocicletas existente nas grandes cidades brasileiras.
Dario Birolini – O pior é que muitas dessas mortes e seqüelas poderiam ser evitadas desde que houvesse adesão, por pequena que fosse, às regras básicas de trânsito.
No entanto, existe uma série de fatos importantes que precisam ser considerados. O motoboy, por exemplo, precisa fazer diversas entregas num curto espaço de tempo para conseguir ganhar o mínimo necessário e isso o obriga a desobedecer às regras de trânsito. E não é só ele. Motorista de caminhão obrigado a dirigir muitas horas seguidas, às vezes, faz uso de drogas para manter-se acordado. Isso altera seus reflexos e aumenta a probabilidade de que atropelamentos e colisões aconteçam. Como se vê, a culpa não é só deles, que acabam sendo vítimas dessa distorção, mas de todos nós.