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Tiques e transtorno obsessivo-compulsivo
Tiques: definição e causa
Síndrome de Tourette
Patologias associadas
Comportamento compulsivo
Causas do TOC
Incontinência verbal
Tratamento
Possibilidades de cura





Dra. Ana Gabriela Hounie é médica, doutora em Psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.

Patologias associadas

DrauzioExiste relação entre tiques nervosos e outras patologias?
A. G. Hounie – Em 30% dos casos, quem tem Síndrome de Tourette vai apresentar também transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e vice-versa. Isso nos faz acreditar que haja um tipo de transtorno obsessivo-compulsivo ligado a tiques que é transmitido geneticamente. Como o TOC com tiques (Sídrome de Tourette) e o TOC sem tiques são patologias diferentes e estamos à procura da causa genética, tentamos delimitar as diferenças desses transtornos para facilitar a pesquisa dos genes responsáveis.

DrauzioO que caracteriza o transtorno obsessivo-compulsivo?
A. G. Hounie – O transtorno obsessivo compulsivo é um distúrbio mental que provoca problemas no processamento da informação e, como o nome diz, caracteriza-se por obsessões e compulsões. A obsessão é uma idéia intrusiva que vem à mente repetidas vezes e, por mais absurda que possa ser, é tão angustiante que a pessoa se vê obrigada a seguir certos rituais pondo em prática algumas compulsões. Pensa, por exemplo, que pegou Aids porque tocou na maçaneta da porta. Embora a idéia seja absurda, é tão aflitiva que ela lava as mãos um sem número de vezes para livrar-se da contaminação pelo vírus.

DrauzioQual é exatamente a diferença entre obsessão e compulsão?
A. G. Hounie – Obsessão é uma idéia ou imagem que ocorre repetidamente e parece estar fora de controle. Compulsão é o hábito que se cria para aliviar a angústia que essa idéia provoca. Existem pessoas que têm compulsão sem obsessão e outras, ao contrário, que têm obsessão sem compulsão, mas o mais freqüente é ter as duas simultaneamente.
Uma pessoa apenas obsessiva tem medo de pegar na maçaneta da porta e contaminar-se com o vírus da Aids, mas não lava as mãos obstinadamente. Muitas até se deixam dominar por rituais mentais, criam fórmulas mágicas em sua cabeça para evitar contrair a doença, mas ninguém por perto percebe o que está acontecendo com elas.
No entanto, é fácil perceber as compulsões. Estão diante dos nossos olhos. A pessoa compulsiva dá dois passos para frente e um para trás, abre e fecha a torneira dez, vinte vezes e demora horas no banho. São comportamentos estranhos que podem ser observados, o que não acontece com as idéias obsessivas, muitas vezes mantidas em segredo, pois o próprio paciente as considera absurdas e sofre anos e anos a fio por falta de diagnóstico e tratamento.

DrauzioAs crianças têm um pouco desses distúrbios normalmente. Não pisam nas riscas do chão, ou não deixam de correr o dedo ou bater um pauzinho numa grade se passam ao lado dela. Quando você considera esse tipo de comportamento normal?
A. G. Hounie – Esse tipo de comportamento faz parte do desenvolvimento da criança e tem função psicológica na infância. O problema é quando se torna exagerado e traz sofrimento. Por exemplo, a criança não consegue responder uma única questão do dever escolar porque escreve, acha que não ficou bem feito e apaga, escreve e apaga, escreve e apaga outra vez. Tal comportamento extrapola os limites do aceitável e, sem dúvida, faz com que essa criança mereça atenção especial.

DrauzioNessa hora, em geral os pais reagem mal. Acham que a criança está se comportando assim porque é teimosa ou desobediente.
A. G. Hounie – É freqüente as crianças serem castigadas por esse tipo de comportamento e, não sabendo como enfrentar a dificuldade, sofrerem em segredo. Trabalhos mostram que, em média, entre o início da doença e o diagnóstico transcorrem de dez a quinze anos. Por isso, a importância de canais como este para alertar as pessoas de que existem tratamentos e alternativas para o problema e que procurar ajuda mais cedo evita sofrimentos desnecessários.