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Indústria do fumo Drauzio – Nos anos 1970, quando o senhor começou esse trabalho, como os médicos recebiam a informação de que o cigarro era mortal? José Rosemberg – A maioria com muito interesse. Havia os médicos fumantes que, evidentemente, se interessavam menos. Em 1985, conseguimos formar a primeira comissão junto ao Ministério da Saúde (éramos oito ou dez médicos, mas gostaria de nomear os professores Mário Rigatto, Edmundo Blundi). Tínhamos o trabalho clandestino de elaborar um programa antitabaco. O ministro da saúde da época, Valdir Arcoverde nos disse – “Quero que vocês apresentem um programa de combate ao fumo, mas, pelo amor de Deus, não digam nada a ninguém, porque a sabotagem contra ele vai ser grande e não tenho meios para combatê-la” Desse modo, durante um ano, nos reunimos em sigilo, uma vez por mês, em Brasília, elaboramos o primeiro Programa Nacional de Combate ao Tabagismo e José Sarney, presidente da república na época, sancionou o projeto que instituía o dia 29 de agosto como Dia Nacional de Combate ao Tabagismo. Drauzio – A pressão violenta que levava o ministro da saúde a pedir que o trabalho fosse feito em sigilo era basicamente exercida pela indústria do fumo que na época controlava os meios de comunicação? José Rosemberg – A indústria tabaqueira internacional - todas elas são multinacionais - controlam os meios de comunicação do mundo. Para ter uma idéia, o programa do congresso norte-americano contra as companhias tabaqueiras fez vir à tona mais de 40 milhões de páginas de atas secretas nas quais, desde 1945, estavam registrados pronunciamentos de técnicos e biólogos a respeito da dependência da nicotina como mais forte do que a da cocaína e heroína. Portanto, muito antes da ciência oficial, a indústria do tabaco já dominava esse conhecimento. No entanto, ela continuou trabalhando para conseguir geneticamente plantas de tabaco que produzissem maiores teores de nicotina e obtiveram a espécie Y1. As primeiras duzentas toneladas foram plantadas no Rio Grande do Sul e o próprio plantador percebeu a força que tinha essa planta, chamada de tabaco louco ou fumo louco, pelas lesões que provocava na pele. Felizmente, o governo brasileiro se recusou a conceder patente para tal produto e o mesmo fez o governo norte-americano. No entanto, neste momento, 21 países do mundo fabricam cigarros com fumo louco, que têm teor de nicotina três vezes maior do que o tabaco comum. E o pior, trata-se de nicotina livre, que vai diretamente para o cérebro e é diferente da nicotina presa por sais minerais. Como se vê, o mundo está sendo invadido pelo fumoY1, uma droga psicoativa muito mais difundida e consumida do que a cocaína, a heroína e outras drogas pesadas. |
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