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Artigos:
O Sonho
Os homens sempre tentaram decifrar o significado dos sonhos, que podem ser apenas uma forma de aliviar o excesso de informações cerebrais arquivadas.





Dr. Flávio Alóe é médico neurofisiologista clínico e trabalha no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

Fase REM do sono e sonho

Drauzio - Explique a relação existente entre a fase REM do sono e o sonho.
F. Alóe - Entende-se como sono REM um estado comportamental diferente do estado de vigília e do sono profundo. É uma fase em que o cérebro está ativo e o corpo ativamente paralisado para que a pessoa não saia fazendo o que está sonhando.
Nos seres humanos, o primeiro estágio do sono é superficial. Nos 30 ou 40 minutos seguintes, paulatinamente, ele atinge sua fase mais profunda. Duas horas depois de terem adormecido, as pessoas entram no sono REM, fase em que ocorre o desligamento da musculatura corporal e aparecem os movimentos oculares rápidos, marcadores fáceis de serem percebidos com monitorização laboratorial pelo perfil de atividade das ondas cerebrais. Se acordadas nesse período, 95% das pessoas dirão que estavam sonhando.

Drauzio - Existem pessoas que não sonham?
F. Alóe - A não ser que estejam sob medicação ou tenham alguma doença orgânica, todas as pessoas sonham de quatro a seis vezes numa noite normal de sono. Os antidepressivos podem inibir o sono REM no início do tratamento, mas aos poucos ele vai sendo recuperado. Os sonhos concentram-se na fase REM do sono, mais para o final da noite. Por isso, muitas vezes quando o despertador toca, acordamos lembrando do sonho que estávamos tendo.

Drauzio - De fato, quando nosso sono é interrompido pelo alarme do despertador, é mais fácil lembrar do que estávamos sonhando. Muitas vezes, porém, antes de chegarmos no banheiro já esquecemos do sonho que tivemos.
F. Alóe - Raramente conseguimos lembrar um sonho por inteiro. O primeiro motivo é porque os sonhos são muito bizarros, não têm trama nem lógica. Uma hora estamos nas Cataratas do Iguaçu, noutra no Canadá e existe uma pessoa voando por perto. A outra razão para o esquecimento é que a circuitaria neuronal usada para produzir o sonho é diferente da utilizada para a memorização do aprendizado diário. É como se escolhêssemos um caminho diferente todos os dias para chegar ao destino. Três ou quatro semanas depois, se quiséssemos lembrar o percurso adotado numa determinada ocasião, jamais conseguiríamos. Parece mesmo que o sonho foi feito para ser esquecido. Não se sabe bem o porquê, mas é como se ele existisse para fazer uma limpeza neuronal, retirando as informações em excesso ou inúteis. Só permanecem aquelas que representam um evento traumático, de caráter repetitivo e que acaba transformando-se num transtorno do sonho.