BUSCA

 

Enfisema Pulmonar
Recomendações
Pulmão
 




Pneumologia é a parte da Medicina que estuda o aparelho respiratório. Ronaldo Kairalla é médico pneumologista, professor da Universidade São Paulo.
 
 

Enfisema

Drauzio - Quais são os sintomas do enfisema pulmonar? Eles aparecem logo?
Kairalla - O enfisema é uma doença progressiva, de lenta evolução, na maioria dos casos, provocada pelo fumo. Quando os sintomas aparecem, e o primeiro é a falta de ar, a doença já está num estágio avançado e não há como fazê-la retroceder. Pode-se, apenas, impedir que avance, desde que o fumante consiga abandonar a dependência química.
 
O pulmão tem grandes reservas. Para ter-se uma idéia, sentados e conversando, usamos apenas 20% de sua capacidade para assimilar oxigênio e eliminar gás carbônico. As atividades do dia-a-dia consomem não mais do que 30% ou 40%. Por isso, se a área destruída for pequena, não haverá sinais significativos. A falta de resistência, o cansaço constante e o fôlego curto serão atribuídos à vida sedentária, ao excesso de peso ou à idade e não à morte de uma área vital do organismo.
 
Para suprir a necessidade de oxigenação, o paciente aumenta a freqüência com que respira.
 
Em geral, enfisema e bronquite crônica ocorrem simultaneamente. Por isso, tosse com catarro, além da inflamação dos brônquios, pode indicar que parte dos pulmões está sendo destruída para sempre.
 
Como o enfisema é uma doença rara em não-fumantes, não fumar é a maneira mais segura para garantir sua prevenção e tratamento. Quanto mais cedo se começa a fumar, mais precocemente ele surge. E, quanto maior o número de cigarros fumados, mais rápida é a evolução do processo. Em geral, são necessários 30 anos para os sintomas aparecerem, mas a doença existe desde a primeira tragada.
 
 
Estágio final do enfisema

Drauzio - Como costuma ser o final de vida do enfisematoso?
Kairalla - O final de vida do enfisematoso é muito ruim. O sofrimento é longo, porque a evolução costuma ser lenta.
 
Progressivamente a quantidade de oxigênio em contato com o sangue diminui. Resultado: a pessoa precisa respirar mais vezes para atenuar essa deficiência. Como qualquer atividade consome oxigênio, ela reduz os movimentos. Deixa de subir escadas, de andar a pé. Chega o momento, porém, em que não consegue realizar atividades corriqueiras, como tomar banho e comer.
 
Comer torna-se especialmente difícil. O diafragma é um músculo importante para a função respiratória. O pulmão, porém, deformado pelas bolhas de ar próprias do enfisema, empurra-o para baixo o que reduz seu movimento. Para respirar é necessário recorrer à musculatura acessória, ou seja, a dos ombros, que também participa da respiração. Para conseguir comer, resta o recurso de apoiar o cotovelo na mesa, para expandir a caixa torácica.
 
Para muitos pacientes, talvez o pior seja o grau de limitação e dependência que o enfisema impõe aos portadores.
 
 
Possibilidades de tratamento

Drauzio - O que a Medicina pode oferecer, hoje, como tratamento, uma vez que o enfisema não tem cura?
Kairalla - Para o enfisema do fumante, o pré-requisito básico é parar de fumar. Dois outros tratamentos, que visam à melhor qualidade de vida do doente, podem oferecer bons resultados:
 
1) Reabilitação pulmonar - À medida que o enfisema evolui, a pessoa deixa de fazer uma série de coisas, torna-se mais sedentária. A musculatura atrofia e respirar fica mais difícil ainda. Para interromper esse círculo vicioso, há programas de treinamento muscular que permitem recuperar parte da capacidade para realizar esforços, apesar de a doença permanecer inalterada.
 
2) Intervenção cirúrgica - O paciente é operado para retirar as áreas mais afetadas pelas bolhas que empurram o diafragma, impedindo-o de exercer suas funções normais. Trata-se de um tratamento novo, mas com boas perspectivas.
 
 
Causas genéticas e outras causas

Drauzio - Além do cigarro, o que pode causar enfisema pulmonar?
Kairalla - Relativamente rara, a deficiência congênita de uma enzima protetora dos pulmões pode indicar maior predisposição para desenvolver enfisema, mesmo em não-fumantes. Nesse caso, a doença se manifesta em pessoas mais jovens e sua evolução é mais rápida.
 
Para a deficiência congênita, algumas terapias genéticas estão sendo estudadas.
 
 
Fibrose

Drauzio - O que é fibrose?
Kairalla - Em geral, os processos patológicos têm uma fase de inflamação e outra de cicatrização. A fibrose é resultado da cicatrização do pulmão. Um corte na pele pode redundar numa cicatriz grossa, saliente, como as que aparecem no pulmão. Ao contrário do que acontece na pele, porém, a cicatriz reduz a elasticidade e tamanho do órgão. Menor e mais endurecido, sua dificuldade para realizar a troca gasosa aumentará significativamente. Fatores genéticos ou continuada exposição a partículas agressivas podem provocar o aparecimento da fibrose.
 
Drauzio - O que faz do enfisema uma patologia diferente da fibrose?
Kairalla - Alguns agentes não causam inflamações, mas comportam-se como uma enzima que digere os alvéolos onde se processa a troca gasosa. De dimensões microscópicas e altamente irrigados, quando agredidos por esse material corrosivo, os alvéolos transformam-se em grandes sacos cheios de ar que dificultam o contato do oxigênio com o sangue, uma vez que foi destruído o tecido por onde passavam os vasos.
 
 
Função básica do pulmão

Drauzio - Como funciona um pulmão normal?
Kairalla - O pulmão desempenha função básica para a vida: promove a troca gasosa, isto é, o sangue recolhe oxigênio do ar e elimina gás carbônico produzido no metabolismo das células de todo o corpo. Imagine uma árvore de cabeça para baixo. O caule representaria as vias aéreas superiores: o nariz (ou a boca) por onde o ar é aspirado, a laringe, a faringe, a traquéia. Os galhos seriam as ramificações dos brônquios e a copa, dividida em duas metades, uma em cada lado do peito, os pulmões. Sua estrutura é perfeita. Se fosse possível distendê-los completamente, o pulmão ocuparia uma área equivalente a de uma quadra de tênis. Apesar de sua estrutura muito delicada, dentro deles circulam meio litro de sangue e três litros de ar.
 
 
Mecanismos de defesa

Drauzio - Os mecanismos de defesa do pulmão contra bactérias e impurezas nunca falham?
Kairalla - Antes de atingir os pulmões, o ar vai sendo filtrado pelos diferentes órgãos do aparelho respiratório que retêm impurezas e bactérias e elevam sua temperatura para aproximadamente 37o. Doenças congênitas ou adquiridas durante a vida podem prejudicar essa defesa e partículas agressoras chegam aos alvéolos, a região mais importante do aparelho respiratório. Por exemplo, bactérias conseguem vencer a barreira imposta pelas vias aéreas superiores, alojam-se num alvéolo e produzem um infecção local: a pneumonia. Poeiras orgânicas, como a sílica, a que estão expostos trabalhadores em pedreiras, driblam os mecanismos de defesa, depositam-se nos pulmões e provocam fibrose. Já o enfisema ocorre em virtude da inalação de certos tipos de fumaça que destroem o tecido pulmonar.