Dr. Sérgio Timerman é médico cardiologista, diretor do Departamento de Ressuscitação e Centro de Treinamento em Emergências do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Adilson do Nascimento, ex-jogador de basquete da seleção brasileira, participou de três olimpíadas, quatro campeonatos mundiais e vários campeonatos sul-americanos. Jogando numa equipe de veteranos, teve uma parada cardíaca na quadra do clube Paulistano.
Segunda parte - Sérgio Timerman
a) Prevalência
Drauzio – Isso que aconteceu com o Adilson, um homem forte, um atleta profissional que teve uma parada cardíaca durante uma partida de basquete, é um fato comum ou raro? Sergio Timerman – Como o próprio nome diz, a parada cardíaca, também chamada de morte súbita, ocorre de repente e de forma inesperada. No nosso meio, acima dos 40 anos de idade, é o evento responsável pelo maior número de casos fatais. Mata dez vezes mais do que a soma dos casos de AIDS, armas de fogo e câncer de mama. Se a pessoa não receber o atendimento imediato que Adilson recebeu no clube Paulistano, a possibilidade de sobrevivência é muito pequena.
Drauzio – Adilson teve a parada cardíaca jogando basquete, o que fez profissionalmente por muitos anos. Em que situações, ela pode ocorrer com mais freqüência? Sergio Timerman – Mais de 80% dos casos ocorrem nos próprios lares e, muitas vezes, são presenciados pos crianças e adolescentes. O restante acontece em locais de grande concentração, como shopping centers, estádios de futebol, etc.
Parada cardíaca é uma doença democrática: não escolhe sexo nem raça, e mais de 70% dos pacientes não chegam com vida aos hospitais.
Drauzio – Você disse que mais de 80% das mortes súbitas ocorrem dentro de casa. Esse é um dado realmente assustador... Sergio Timerman – Para ser mais preciso, 84% das mortes súbitas que ocorrem fora do ambiente hospitalar acontecem em nossos lares. São nossos avós e, muitas vezes, nossos pais que morrem em frente de uma criança ou adolescente da família. Há uma estatística mostrando que em torno de 50% das crianças, neste momento, podem estar presenciando uma parada cardíaca.
Drauzio – Diante de alguém - o avô, por exemplo, - que está fazendo alguma coisa e de repente cai no chão, o que em geral se faz é colocar a pessoa num carro e levá-la rapidamente para o hospital. Isso está certo? Sergio Timerman – Se não fizermos absolutamente nada para socorrer essa pessoa no local em que sofreu a parada cardíaca, estaremos transportando um cadáver. O sucesso da ressuscitação depende de atendimento imediato. Isso foi discutido muito nos últimos cinco anos, e as Novas Normas de Ressuscitação pretendem, de maneira muito clara, simplificar a linguagem e
as manobras das normas de 2000. Mas, isso não basta. É importante alertar a população e treiná-la para que possa prestar socorro nos primeiros minutos depois que a pessoa sofreu a parada cardíaca.
Drauzio – Adilson disse que não sentiu nada quando teve a morte súbita. Lembra, apenas, que chegou ao clube, assistiu ao treino de pólo-aquático e acordou na UTI do Incor. Há sintomas que costumam preceder as paradas cardíacas e que ele não percebeu? Sergio Timerman – O caso do Adilson mostra bem o que pode ser a morte súbita. Com alguma freqüência, o primeiro sintoma do infarto é a parada cardíaca. A pessoa não sente absolutamente nada antes. O risco é maior nos indivíduos com antecedentes familiares da doença ou morte súbita, nos tabagistas, nos portadores de diabetes, de colesterol elevado e hipertensão, por exemplo. Esses deveriam fazer acompanhamento médico como forma de prevenção. Infelizmente, como muitos são absolutamente assintomáticos, é comum o primeiro sinal da doença ser a morte súbita.
Drauzio – Num caso como o do Adilson, que teve uma parada cardíaca batendo bola no meio da quadra, tentar levá-lo para o hospital seria o mesmo que transportar um cadáver? Sergio Timerman – Adilson teve a sorte de ter a parada cardíaca no lugar certo e na hora certa. Fazia pouco tempo que o Instituto do Coração e o Clube Paulistano haviam desenvolvido um trabalho conjunto de treinamento de pessoal para prestar socorro nesses casos e ali estava um professor de Educação Física que sabia dar suporte de vida e manusear o desfibrilador instalado em pontos estratégicos do clube.
Drauzio – O que fez esse professor? Sergio Timerman – Assim que Adilson caiu no chão, o professor viu que ele estava inconsciente e sem respirar e iniciou as manobras de ressuscitação, isto é, massagem cardíaca e respiração boca-a-boca. Pediu, também, que lhe trouxessem o desfibrilador e chamassem o resgate.
Está documentado que tudo isso foi feito em menos de três minutos e que o sangue só voltou a circular espontaneamente depois da terceira descarga de choque. No entanto, quando o serviço de ambulância chegou, Adilson já estava respirando e foi transportado com vida para o hospital.